Comer "de mão" e o caso do "capitão". Corpos, identidades e resistências
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Nilzete Habib, uma mulher branca de classe média, dona de casa nascida em Belmonte, no
extremo mais Sul do estado da Bahia, no Nordeste do Brasil, alimentava seus filhos e netos
com capitão de feijão. Sempre o fez. Primeiro, com meu pai e seus irmãos, seus filhos;
depois, comigo, meu irmão e meus primos, seus netos. Segundo ela, o nome capitão se
explicava no que hoje desconfio ser uma estratégia: tínhamos de comer todas as patentes do
exército até chegar ao capitão, uma das mais altas. Era sinal de que havíamos comido bem.
Um jeito afetivo, tátil, multissensorial de alimentar seus descendentes. Este registro me faz
quem sou; essa memória constrói minha identidade. Ao longo da vida, vi outras famílias,
sempre chefiadas por mulheres nordestinas, como ela, cultivarem uma prática alimentar
parecida. O ritual, os sentimentos e sensações nele envolvidos, que transitavam do afeto ao
prazer e à vergonha, passaram a me intrigar cada vez mais. Esta pesquisa parte desta
experiência.
Ao longo de seu percurso, este trabalho examina a prática de comer com as mãos como uma
prática cotidiana de resistência, investigando, na cultura alimentar brasileira, um dos modos
como esta se conforma e é mais conhecida: por meio de bolinhos de feijão e farinha
denominados, em algumas partes do país, de "capitão".
PRÉMIO IGOR DE GARINE 2024
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