Published November 1, 2025 | Version v1
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O Mito da Imigração: colonização de povoamento no Brasil republicano e a gramática justificadora da recolonização brasileira.

  • 1. Independent Researcher

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Esta tese-manifesto introduz e teoriza o “mito da imigração” como método de leitura crítica e categoria analítica que designa o dispositivo discursivo-operacional que reorienta a memória nacional ao reclassificar como “imigração” o projeto autoritário de colonização de povoamento, sob regime de colonialismo interno, implementado no Brasil a partir do golpe de Estado republicano de 15 de novembro de 1889, e operado em parcerias econômicas público-privadas com companhias internacionais de colonização (como as alemãs, italianas, japonesas, judaicas e norte-americanas). Dessa forma, o "mito da imigração" opera como dispositivo recodificador e gramática justificadora: forjando a "máscara de imigrante" ao atribuir conotações moralizantes ao termo "imigrante" e, simultaneamente, degradantes ao termo "colonizador", deslocando-o somente para o recorte histórico luso-brasileiro. O "mito da imigração” consolida o projeto recolonizador; sem sua desativação, não há descolonização. 

Até onde alcança o estado da arte, trata-se do primeiro estudo de história comparada a enquadrar a Primeira República brasileira (1889–1930) como projeto governamental que emulou práticas coloniais e autoritárias características do Novo Imperialismo (1880–1914), comprovando que o Brasil não esteve à margem das transformações globais normalizadas após a Conferência de Berlim (1884–1885), também conhecida como “Partilha da África”. Este estudo demonstra que o projeto do governo republicano, amparado pela ideologia positivista do Exército, não apenas incorporou a recolonização à sua arquitetura, mas a tomou como princípio ordenador do programa estatal, nos moldes dos projetos coloniais europeus na África e na Ásia, sob a mesma ótica ideológica de construção de “Ordem e Progresso” por meio do elemento tido como civilizador e hierarquizado como racialmente superior. A investigação aprofunda essa conexão, posicionando o positivismo cientificista como o cavalo de Tróia e via natural para o darwinismo social e o racismo científico, ao mesmo tempo em que justificava a estratificação social por meio da “lei dos três estados”. Revela-se, assim, a fundação contraditória do republicanismo: a tensão insolúvel entre seu projeto dito humanista e sua operação prática como um regime de tutela cultural e racialmente hierarquizado, com intervenções violentas contra a população brasileira, em prol da implementação da nova estrutura social “modernizadora”, de caráter colonizador. A pesquisa avança ao recuperar a mentalidade positivista como ideologia revolucionária em confronto com a matriz luso-brasileira e como influência de longo prazo na adoção de repertórios científicos colonizadores de matriz anti-ibérica. 

O estudo evidencia o protagonismo de colonizadores estrangeiros, especialmente de ascendência alemã e italiana, reclassificados como “imigrantes” ou recém-naturalizados como “brasileiros”, nas práticas de violência e extermínio e, de modo crucial, na produção de novas estruturas sociais baseadas em racismo científico. Esse processo evidencia que o dispositivo de reclassificação imigracionista mascara a participação colonizadora na ordem sociopolítica republicana e opera como uma construção narrativa de que o racismo brasileiro é continuum da herança escravagista, e não uma ruptura por intervenção estatal. Como afirma Patrick Wolfe, “o colonialismo de povoamento é uma estrutura, não um evento”. 

O Brasil revela-se um caso anacrônico na medida em que discursos ideológicos pró-colonização, especialmente os produzidos pelas redes de sociabilidade dos protagonistas desse sistema, foram seletivamente canonizados, criando uma nova memória coletiva. Esses dispositivos de controle de narrativas operam como gramática colonial contemporânea e ferramenta de colonização intelectual, criando uma infraestrutura de léxicos eufemísticos, entre eles “branqueamento”, “europeização”, “coronelismo”, “república da espada”, “voto de cabresto”, “política café com leite”, “projeto civilizador” e “modernização”. Tais bibliografias e léxicos distanciam a leitura da participação do Brasil em projetos autoritários e colonizadores globais contemporâneos à Primeira República. 

Esses reenquadramentos do sistema de colonização como “imigração” mantiveram o Brasil em uma estrutura econômica e social neocolonial e ancoraram as medidas reparatórias exclusivamente na memória da escravidão, distanciando o país das discussões e agendas internacionais de descolonização e de responsabilizações por práticas neocoloniais no Brasil. 

Em registro de manifesto, o estudo propõe um vocabulário analítico-operacional e um programa crítico voltados à identificação e à nomeação de agentes e práticas que contribuem para a manutenção da estrutura colonial, visando à reorientação do debate nacional em direção ao cumprimento da Declaração Universal dos Direitos Humanos e ao alinhamento com as agendas das metas previstas nas Décadas Internacionais de Erradicação do Colonialismo, preconizadas pela Organização das Nações Unidas. Minha perspectiva autoetnográfica, sustentada por experiências empíricas e fundamentação teórico-bibliográfica, convida aqueles que se reconhecem em processos análogos a assumir a liderança nas discussões propostas. Os procedimentos metodológicos encontram-se no manuscrito depositado. 

Abstract

This manifesto-thesis introduces and theorizes the “immigration myth” as both a critical reading method and an analytical category that designates the discursive–operational device that reorients national memory by reclassifying as “immigration” the authoritarian project of settler colonization, under a regime of internal colonialism, implemented in Brazil from the republican coup d’état of 15 November 1889 onward and carried out through public–private economic partnerships with international colonization companies (such as German, Italian, Japanese, Jewish, and North American). In this sense, the “immigration myth” operates as a recoding device and a justificatory grammar: forging the "immigrant mask" by attributing moralizing connotations to the term "immigrant" and, simultaneously, degrading connotations to the term "colonizer," displacing the latter solely to the Luso-Brazilian historical frame. The "immigration myth" consolidates the recolonization project; without its deactivation, there is no decolonization.

To the best of the current state of the art, this is the first comparative history study to frame the Brazilian First Republic (1889–1930) as a governmental project that emulated colonial and authoritarian practices characteristic of the New Imperialism (1880–1914), proving that Brazil was not apart from the global transformations normalized after the Berlin Conference (1884–1885), also known as the “Scramble for Africa.”  This study demonstrates that the republican government's project, supported by the Positivist ideology of the Army, not only incorporated recolonization into its architecture but took it as the ordering principle of the state program, modeled on European colonial projects in Africa and Asia, under the same ideological lens of constructing “Order and Progress” by means of an element deemed "civilizing" and hierarchized as racially superior. The investigation deepens this connection, positioning scientistic Positivism as the Trojan horse and natural pathway for Social Darwinism and scientific racism, while simultaneously justifying social stratification through the “Law of Three Stages.” Thus, the contradictory foundation of republicanism is revealed: the insoluble tension between its ostensibly humanist project and its practical operation as a culturally and racially hierarchized regime of tutelage, featuring violent interventions against the Brazilian population in favor of implementing the new "modernizing" social structure, which was colonizing in character. The research advances by recovering the positivist mentality as a revolutionary ideology in confrontation with the Luso-Brazilian matrix and as a long-term influence on the adoption of colonizing scientific repertoires of anti-Iberian orientation.

The study demonstrates the protagonism of foreign colonizers, especially of German and Italian descent, reclassified as “immigrants” or newly-naturalized “Brazilians,” in the practices of violence and extermination and, crucially, in the production of new social structures based on scientific racism. This process makes evident that the immigrationist reclassification apparatus masks the colonizers' participation in the republican sociopolitical order and operates as a narrative construction that frames Brazilian racism as a continuum of the legacy of slavery, and not a rupture by state intervention. As Patrick Wolfe states, “settler colonialism is a structure, not an event.”

Brazil reveals itself as an anachronistic case insofar as pro-colonization ideological discourses, especially those produced by the sociability networks of the system's protagonists, were selectively canonized, creating a new collective memory. These narrative control apparatuses operate as contemporary colonial grammar and a tool of intellectual colonization, creating a euphemistic lexical infrastructure, among them “whitening” (branqueamento), “Europeanization” (europeização), coronelismo, the “republic of the sword” (república da espada), “herd voting” (voto de cabresto), “coffee with milk politics” (política café com leite), the “civilizing project” (projeto civilizador), and “modernization” (modernização). Such bibliographies and lexicons distance the reading of Brazil's participation in the authoritarian and global colonizing projects contemporary to the First Republic.

These reframings of the colonization system as “immigration” have maintained Brazil in a neocolonial economic and social structure and have anchored reparatory measures exclusively in the memory of slavery, distancing the country from international discussions and agendas for decolonization and accountability for neocolonial practices in Brazil.

In the register of a manifesto, the study proposes an analytical-operational vocabulary and a critical program aimed at identifying and naming the agents and practices that contribute to the maintenance of the colonial structure, with the goal of reorienting the national debate toward the fulfillment of the Universal Declaration of Human Rights and alignment with the agendas of the goals set forth in the International Decades for the Eradication of Colonialism, advocated by the United Nations. My autoethnographic perspective, supported by empirical experiences and a theoretical-bibliographical foundation, invites those who recognize themselves in analogous processes to assume leadership in the proposed discussions. The methodological procedures are detailed in the deposited manuscript.

 

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The Immigration Myth: Settler Colonialism in Republican Brazil and the Justificatory Grammar of Brazilian Recolonization.