Published June 4, 2024 | Version v1
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A IMPORTÂNCIA DO LIVRO IMPRESSO NA DEFINIÇÃO DO PERFIL CULTURAL DAS URBES NO PERÍODO MODERNO: impressores em Évora nos séculos XVI e XVII

  • 1. Universidade de èvora

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Refletir sobre a atividade das tipografias, e apreciar o seu papel enquanto reflexo dos ambientes culturais, sociais e económicos onde se instalavam é um trabalho que desde há muito vem sendo alvo do interesse dos investigadores[1].

            No caso da cidade de Évora, a importância da atividade tipográfica manifesta-se logo desde inícios do século XVI. Na obra A imprensa portuguesa durante o século XVI, de 1874, Tito de Noronha apresenta os locais de impressão em Portugal e as temáticas mais comuns. Lisboa, com 445 obras com indicações completas (título, autor, data, local de impressão) e 58 obras com indicações incompletas, encabeça a lista[2], seguida de Coimbra, com 260 e 22, respetivamente, logo seguidas de Évora, com 46 obras com indicações completas (e nenhuma incompleta)[3].

            De acordo com algumas fontes, contam-se na cidade a partir da década de 40 do século XVI sete impressores e quinze livreiros[4], além de haver também notícia de encadernadores[5]. Impressores, livreiros e editores eram atividades profissionais próximas nesse período inicial e muitas vezes convergentes num só indivíduo, autonomizando-se só depois da década de 50 desse século. Havia, porém, casos também em Évora, como o do livreiro António Lermet, provavelmente francês, que encomendou obras a suas expensas [6] a tipógrafos coevos (Anselmo, 1991) de Lisboa (Germão Galharde) e Sevilha (Jacob Croemberger) logo em 1509 e 1528.


[1] Esta é uma temática a que temos também dedicado a nossa atenção, ao considerarmos a importância da produção impressa da cidade e a sua presença nas livrarias monásticas femininas do período moderno nas provas de agregação em História Moderna que apresentámos na Universidade de Évora em Julho de 2020, em especial no Sumário da Lição, intituladoDevotio et eruditio”: memórias da cultura escrita para a reconstrução de identidades monástico-conventuais femininas no arcebispado de Évora.

[2] Borges de Macedo menciona, em 1553, cinco impressores em Lisboa; o autor baseia-se no trabalho de Cristóvão Rodrigues de Oliveira, Sumário que brevemente se contêm algumas cousas (assim eclesiásticas como seculares) que há na cidade de Lisboa. Germão Galharde, 1554 [com edições posteriores, nomeadamente a ed. de 1938, Lisboa].

[3] Depois de Évora, seguem-se Braga, com 20 obras com indicação completa e 2 com referências incompletas, e várias outras localidades (Alcobaça, Almeirim, Viseu, Setúbal, Porto, Vila Verde, Sernache) com valores entre 1 e 7 obras, havendo 22 sem indicação de lugar de impressão. O Autor contabiliza um total de 795 obras com indicação completa e 105 incompletas, totalizando 900 obras. Quanto aos géneros apontados, 406 dessas obras são classificadas pelo Autor como sendo de Teologia e Mística, 160 de Literatura e Poesia, 127 de Poligrafia, 101 de História, Viagens e relacionadas com esses temas, 60 sobre Direito e Legislação e 46 sobre Ciências Naturais e Exatas.

[4] Biblioteca Pública de Évora (BPE), Pasta Cartas Geográficas Modernas, Gav. 7, n.º 49, doc. 16. Trata-se de um quadro elaborado por D. Bruno da Silva, para comemorar a visita à cidade dos monarcas em Maio de 1889. Cf. ainda coma documentação da Biblioteca Nacional de Portugal (B.N.P.), Cx. 202, Docs. 5 a 8, Bibliografia Eborense dos séculos XVI, XVII, XVIII e XIX (org. Gabriel Pereira). Segundo esta documentação, André de Burgos terá exercido atividade até 1589.

[5] Sabendo que ao livreiro competia também a encadernação, além da venda dos livros e da comercialização de material de escrita (Fonseca: 2023, 23-28), sublinhamos o interesse desta informação em alguém que se assume como encadernador num dos Livros de Coro do mosteiro de S. Bento de Cástris: assim, em 1586, em Évora, temos o trabalho do encadernador português Gaspar Ourém. Arquivo Distrital de Évora (A.D.E.), Fundo Musical, Ms. 34.

[6] A Germão Galharde, em 1509 Missale secundum consuetudinem Elborensis ecclesie noviter impressum, impresso em Lisboa (https://purl.pt/14879; na página final, refere o ano da impressão: “millesimo quingensentesimo nono”, e a Jacobo Cromberger a edição de 1528 do Baptisterium seu manuale Elborense noviter emendatus, impresso em Sevilha. Em 1528, e também em Sevilha, o mesmo impressor imprimiu Breviarium secundum consuetudinem Sancte Elborensis ecclesie

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