Direito e Ciência – (Vol. 1)
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- 1. Pontifícia Universidade Católica do Paraná
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PRINCÍPIO DA INDISSOCIABILIDADE ENTRE ENSINO, PESQUISA E EXTENSÃO
O princípio da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão, entalhado no art. 207 da CF, deve ser o norteador do conjunto de atividades acadêmicas no Brasil. Portanto, há mais de 25 anos se busca desenvolver estratégias de articulação entre essas três dimensões da vida universitária. Empiricamente, o que se tem notado é que em grande parte das universidades brasileiras persiste a prática que divide os docentes entre os que se incumbem da graduação, da pesquisa e a te mesmo da extensão. Há, ainda, aqueles que se dedicam ao ensino e desenvolvem atividades de pesquisa e extensão, mas, mesmo nesse caso é legítimo perguntar: existe indissociabilidade? A relevância da integração entre ensino, pesquisa e extensão parece é indiscutível. A harmonização dessas três dimensões da prática universitária transforma-se num poderoso motor que impulsiona a revisão de métodos de ensino, a promoção de um aprendizado efetivo do ponto de vista social e dá base para a socialização do conhecimento, além de permitir que o mesmo seja reelaborado a partir do contato com a realidade extra-campus.
Para que a vontade constitucional de converta em práticas cristalizadas no cotidiano da vida acadêmica, concepções caducas precisam ser revisadas. Uma articulação entre ensino e pesquisa que realmente seja impactante e transformadora, como objetivou o constituinte, supõe o abandono de posturas herdadas dos ideais positivistas de ciência. Em outras palavras, as noções de que a ciência é um produto sempre acabado, desvinculado do contexto histórico; de que o discente deve se comportar de forma a repetir o pensamento do professor ou reproduzir o que os textos dizem; e de que a memorização e a verdade dita pelo professor trazem mais segurança; são concepções que orientam práticas universitárias e produzem efeitos contrários à articulação pretendida. Precisam ser gradativamente abandonadas em favor da integração professor aluno por meio de métodos articulem ensino e pesquisa. Isso passa pelo abandono das noções positivistas de que a pesquisa é atividade exclusivamente docente. Este, por seu turno, deve promover a curiosidade dos discentes pela pesquisa adotando novas posturas na sala de aula, tais como: destacar que o conhecimento é uma construção histórica e cultural; incentivar a combinação de ideias e o diálogo com outros campos do conhecimento; estimular os alunos a fazerem aproximações aos temas por meio da pesquisa orientada; mostrar que a incerteza das dúvidas é mais frutífera do que a segurança da verdade. Essas novas posturas frente à sala de aula têm a vantagem de aguçar no corpo discente a curiosidade pela pesquisa, uma vez que a mensagem passada é deque o conhecimento não é estático. E também requerem professores sintonizados com a pesquisa. É nesse sentido que o Projeto Pedagógico Institucional das Faculdades Integradas do Brasil preconiza a construção de um ambiente acadêmico “que cultive de modo natural e permanente o mérito acadêmico, e, tenha o compromisso com a aprendizagem reconstrutiva na instituição como um todo, em particular com respeito aos alunos”. Ensinar significa manter o conhecimento sob constante revisão pela pesquisa.
Todavia, o maior desafio no cumprimento do mandamento constitucional de promoção da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão está na superação da noção de que a extensão é a parte final do processo. Esse entendimento vê nas ações extensionistas uma função “devolver à sociedade” os resultados do conhecimento produzido dentro na academia. Para alguns autores, a origem dessa noção vem dos governos militares que procuraram arregimentar as universidades para irem à população, particularmente à população pobre, levar seus conhecimentos. Era uma política preconceituosa, de via de mão única (da academia para a sociedade) e de forte caráter de controle social, pois o alvo das universidades eram as áreas carentes, portanto, de fácil cooptação pelos movimentos de esquerda. Ainda que seja a prestação de serviços seja uma dimensão importante (assistência, serviços e consultorias), a extensão precisa ir além. Ela necessita se constituir na ocasião e que a realidade social confronta com a abstração acadêmica. As ações de extensão não podem se constituir no ponto final do processo acadêmico. Ela pode ser o ponto de ignição de uma nova reação entre ensino-pesquisa-sociedade, uma vez que ao imiscuírem-se na sociedade, professores e alunos têm motivos para, por meio da pesquisa, reelaborarem o conhecimento apreendido em sala. Dessa forma, a academia estaria cumprindo o mandamento constitucional de articular ensino, pesquisa e extensão, com propósitos transformadores.
Alexandre Godoy Dotta
Walter Fernandes da Cunha Filho
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- Book: 978-85-66201-63-5 (ISBN)