Pesquisa e aplicações em música ubíqua no campo Educacional
Description
Um dos focos de pesquisa presentes nestes 10 anos de workshop ubimus, constitui as aplicações e contribuições em ubimus no campo educacional, em especial junto à Educação Básica, etapa que compreende as modalidades de ensino que englobam a Educação Infantil, o Ensino Fundamental de nove anos e o Ensino Médio. As contribuições em ubimus no campo educacional abrangem tanto a aplicação e o registro de experiências em ensino e pesquisa na modalidade de investigação-ação participativa em contextos educacionais formais e informais, dentro e fora da sala de aula, como também pesquisas de cunho teórico a partir do levantamento do estado da arte relacionado ao tema. Todas as ações possuem como perspectiva o professor como pesquisador de sua práxis educacional. No que diz respeito à pesquisas na modalidade investigação-ação, desde 2010 várias ações em ubimus têm sido desenvolvidas em contextos formais e informais de Educação Básica, e mais especificamente desde 2012, o CAp - Colégio de Aplicação da UFRGS - Universidade Federal do Rio Grande do Sul - tem sido sistematicamente protagonista de experiências e pesquisas em ubimus em Educação Básica. As ações de ensino e pesquisa desenvolvidas no CAp têm como foco aspectos relacionados ao processo investigativo e à aplicação do enfoque cognitivo-ecológico em atividades relacionadas à pesquisa e ensino, através da prática da ecocomposição, tendo como propostas: a realização de atividades de criação, composição, colaboração e compartilhamento, através da utilização da infraestrutura tecnológica existente em ambientes e contextos não planejados para a atividade artística musical; a compreensão dos processos de apropriação por parte de músicos e leigos de ferramentas cotidianas disponíveis nos seus ambientes para realizar atividades de criação musical a partir de seus nichos / contextos, abrangendo o impacto dos recursos locais nas atividades criativas e a ação dos indivíduos na geração de novos recursos produzindo adaptações no seu entorno; a aplicação e registro de processos investigativos e reflexivos em Iniciação Científica júnior com alunos do Ensino Médio, a partir das perspectivas interdisciplinar e transdisciplinar. Os processos investigativos em ubimus na Educação Básica, possuem como base a concepção educacional dialógica e participativa envolvendo alunos da Educação Básica, em especial do Ensino Médio através da modalidade de bolsas de Iniciação Científica Júnior - IC jr -, além de bolsistas Iniciação Científica de graduação, bem como parcerias e colaborações estabelecidas com membros do G-ubimus - Grupo de Pesquisa em Música Ubíqua g-ubimus/CNPQ. No que diz respeito a contribuições ao campo teórico da pesquisa em ubimus em Educação Básica, destacamos dois conceitos desenvolvidos ao longo do processo: os conceitos de diásporas mentais e mentes diaspóricas (2013), que se interconectam e aproximam ao conceito de criatividade musical cotidiana e ao enfoque cognitivo-ecológico em ubimus. Os conceitos de diásporas mentais e mentes diaspóricas procuram sintetizar a dinâmica complexa do emergente movimento não-linear e retroativo observado através do uso ostensivo da internet e de ferramentas de iteração: mentes individuais interagindo diasporicamente, coletivamente, modificando/influenciando e ao mesmo tempo retroagindo e sendo também modificadas / influenciadas em uma interação contínua. Estes conceitos relacionam-se aos emergentes movimentos, comportamentos e processos criativos interativos, interpessoais, protagonistas, não hierárquicos, ou com hierarquia flutuante, individuais e coletivos associados à crescente necessidade de expressão e compartilhamento. Eles sintetizam o movimento complexo, que nos potencializa sermos ao mesmo tempo em vários espaços e tempos, que nos desimpede de limitações físicas, locais, sociais, que reafirmam nossa identidade complexa, física e não-física, cerebral, mental, espiritual, contraditória e consensual, coletiva e individual. Esses comportamentos estão vinculados a uma necessidade profunda humana de expressão, não somente de ideias mas também sentimentos emoções, e de uma profunda necessidade de estar junto. Ou seja, à expressão da complexidade da manifestação do homo no mundo em suas facetas, segundo Morin: sapiens, faber, demens, ludens, mythologicus. Facetas que impregnam nossas próprias relações com o mundo que construímos, e com a tecnologia que retroage sobre o mundo e sobre nós, e a forma como criamos. Facetas que estamos mais do que nunca vivenciando nestes tempos limitantes de pandemia, através dos movimentos de nossas próprias diásporas mentais, interagindo, criando, nos recriando nessas interações mentais. Em nossas complexas interações associadas à tecnologia, destacamos também o comportamento associado ao jogo, na forma característica de como exploramos as possibilidades proporcionadas pelas ferramentas tecnológicas que possuímos em nossa ambiente. Esse jogar, segundo Heidegger, se apresenta como uma característica essencial de nossa existência, na exploração e na relação que estabelecemos com o mundo: do ser como essencialmente ser-um-com-o-outro, do jogo como parte da existência dessa relação. Refletir sobre esses emergentes movimentos, comportamentos e suas interações e repercussões, e tomarmos consciências deles como potenciais espaços do fazer criativo consciente, constitui uma das tarefas da educação em todos os níveis, e acreditamos, da pesquisa em ubimus. Constitui fazer ciência com consciência. Acreditamos que a diversificação dos espaços potenciais para o fazer criativo, gera novas demandas do suporte tecnológico e sublinha o caráter interdisciplinar e transdisciplinar da pesquisa em ubimus. O foco na criatividade musical cotidiana coloca em evidência a necessidade de desenvolver perspectivas aplicáveis não só às práticas musicais existentes (como as manifestações da música instrumental, por exemplo), mas também às práticas musicais futuras, tendo como perspectivas: (1) A interação social como eixo dos processos criativos; (2) a utilização dos ambientes cotidianos como âmbito ideal para a prática artística; (3) o incentivo à atividade exploratória através do uso de recursos locais e do suporte tecnológico. Incluo aqui o que consideramos essencial dentro da perspectiva educacional: (4) o incentivo aos processos reflexivos e a possibilidade de trocas dessas reflexões entre os pares envolvidos em todos os níveis do processo criativo. Todos os aspectos aqui levantados enfatizam a necessidade de reflexão e de ações conjuntas em relação ao desenvolvimento de tecnologias colaborativas que proporcionem formas de interação social que estejam em acordo com as perspectivas em ubimus, e que considerem tanto o desafios de nossa realidade de profunda de desigualdade social e de alcance de recursos, no contexto brasileiro, considerando a abrangência dos espaços de Educação Básica, onde ao mesmo tempo coexistem situações tão dicotômicas, como a explosão da circulação de informação impulsionada pelas redes sociais virtuais, bem como a própria limitação e mesmo ausência de acesso à infraestrutura de suporte e à Internet. Os aspectos aqui levantados dentro do âmbito da pesquisa em ubimus na Educação Básica, extrapolam os limites desta e colocam em ênfase próprio o perfil multidisciplinar do grupo de pesquisa em ubimus, além de ressaltar o perfil interdisciplinar e transdisciplinar de sua pesquisa e a abrangência de sua atuação. Esses aspectos também apontam potenciais questionamentos e processos reflexivos sobre nossos determinismos e possibilidades, da paradoxal complexidade interativa de nossa constituição física, cerebral, mental, espiritual, de nossos avanços e recuos, da necessidade de uma profunda reflexão sobre a ciência, sobre a tecnologia que produzimos e que nos produz. Processos reflexivos necessários mais do que nunca hoje, em todas as instâncias e níveis educacionais, ressaltando também que, nestes tempos de pandemia, esta reflexão não constitui mais apenas uma opção.
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