PERSPECTIVAS DA ÁFRICA, ÁSIA E SUL GLOBAL: PLURALIZANDO O ENSINO DE HISTÓRIA
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O ensino de História no Brasil permanece fortemente estruturado por matrizes eurocêntricas que organizam o passado a partir de uma lógica hierárquica, na qual a Europa é concebida como centro irradiador de processos históricos, enquanto África, Ásia e outras regiões do Sul Global são frequentemente tratadas como periféricas, secundárias e quase sempre estigmatizadas e atravessadas por preconceitos. Esse enquadramento não apenas limita a compreensão da diversidade das experiências históricas, como também produz silenciamentos sistemáticos sobre o protagonismo de diferentes sociedades, reforçando uma narrativa linear e evolutiva que associa modernidade, racionalidade e progresso exclusivamente ao Ocidente [10; 5].
Esse problema torna-se ainda mais evidente quando analisado à luz dos processos de descolonização do século XX, que não apenas redefiniram fronteiras políticas, mas também influenciaram os fundamentos epistemológicos da produção do conhecimento histórico, incentivando pesquisadores a voltar-se aos estudos dessas regiões. As independências na África e na Ásia impulsionaram a emergência de novas historiografias comprometidas com a valorização de experiências locais, saberes subalternizados e trajetórias próprias de desenvolvimento histórico. No entanto, tais transformações ainda não foram plenamente incorporadas ao ensino de História no Brasil, que continua, em grande medida, reproduzindo categorias e interpretações herdadas de tradições historiográficas eurocêntricas [9].
No contexto brasileiro, essa lacuna assume particular relevância, uma vez que o país está historicamente vinculado ao Sul Global e possui profundas conexões com a África e, em menor medida, com a Ásia, seja por meio da diáspora africana, das dinâmicas do colonialismo ou das relações contemporâneas no âmbito geopolítico e econômico. A invisibilização dessas conexões no ensino de História compromete a formação de uma compreensão mais ampla das relações históricas que estruturam a sociedade brasileira, além de dificultar a construção de uma leitura crítica das desigualdades globais e de suas origens históricas [6].
Apesar de avanços institucionais importantes, como a promulgação da Lei 10.639/2003 e a implementação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), persistem limitações significativas na incorporação de perspectivas epistemológicas plurais e de metodologias adequadas ao ensino dessas regiões. Em muitos casos, a presença de conteúdos relacionados à África e à Ásia ocorre de forma pontual e desarticulada, sem promover uma revisão efetiva das estruturas narrativas que sustentam o currículo. Dessa forma, tais iniciativas acabam por coexistir com a manutenção de um quadro interpretativo que continua privilegiando a centralidade europeia [4].
Diante desse cenário, este policy brief sustenta que a superação dessas limitações exige uma transformação estrutural do ensino de História, que incorpore abordagens decoloniais, perspectivas da história global e a diversificação de fontes históricas como elementos centrais da prática pedagógica. Tal reorientação implica não apenas a ampliação de conteúdos, mas uma mudança nas formas de produzir, selecionar e ensinar o conhecimento histórico, de forma a articular ensino, formação docente e produção acadêmica em consonância com a necessidade de reconhecer a centralidade histórica da África, da Ásia e do Sul Global na constituição do mundo contemporâneo.
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