Published March 9, 2026 | Version v1
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KEEP YOUR ELETRIC EYE ON ME: ZIGGY STARDUST E O LP COMO FORMA DE REALIDADE

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O artigo “Keep Your Electric Eye on Me: Ziggy Stardust e o LP como Forma de Realidade”, de José Cesar Fernandes Gomes, analisa o álbum The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars (1972), de David Bowie, investigando como a obra articulou uma crítica estética ao rock underground e ao mainstream no contexto das transformações culturais do início da década de 1970. Partindo das reflexões de Herbert Marcuse sobre a autonomia da arte, o estudo argumenta que Bowie utilizou o formato do LP como uma “forma de realidade”, na qual a fantasia e a construção narrativa funcionam como estratégias de negação crítica das condições sociais do período. Nesse sentido, o álbum afasta-se do modelo da canção de protesto típico da contracultura, frequentemente assimilado pelo mercado musical, e explora o disco de longa duração como espaço para experimentação narrativa e para o desenvolvimento de uma estética de montagem musical.

A análise demonstra que o álbum reconfigura os códigos do rock and roll ao reutilizar clichês sonoros associados aos anos 1950 — como ritmos shuffle e referências ao doo-wop — de forma crítica e distanciada. Em vez de reforçar a função tradicional do rock como música de entretenimento e dança, Bowie organiza o disco por meio de uma sequência de faixas que alternam intensidades, andamentos e atmosferas, produzindo uma escuta marcada pela tensão entre familiaridade e estranhamento. Canções como “Five Years” utilizam elementos reconhecíveis do rock para narrar cenários distópicos, convertendo a linguagem popular em um instrumento de reflexão sobre crise cultural e colapso social.

O artigo também examina a dimensão performática do projeto artístico de Bowie, aproximando-a das concepções do Bertolt Brecht sobre o teatro épico. Ao criar o personagem Ziggy Stardust, Bowie rompe com o ideal de autenticidade dominante no rock dos anos 1960 e transforma a figura do músico em uma construção teatral. Essa estratégia é reforçada pelo uso de androginia e pela exploração de identidades sexuais dissidentes, que desafiam os padrões masculinos e heteronormativos associados ao hard rock da época. A multiplicidade de personagens e perspectivas presentes no álbum evidencia a artificialidade da figura da estrela do rock e revela os mecanismos de produção da celebridade na cultura pop.

Por fim, o estudo interpreta o álbum como uma narrativa fragmentada sobre um alienígena que se torna popstar em um mundo à beira do colapso. A interação direta com o público em “Rock ’n’ Roll Suicide” rompe a fronteira entre ficção e realidade, incorporando o ouvinte ao universo dramático do disco. Nesse contexto, Ziggy Stardust expressa a desilusão da juventude pós-1968 e substitui o horizonte utópico da psicodelia por uma visão antiutópica marcada pela crise cultural e pelo sentimento de “no future”. Conclui-se que o álbum consolidou o glam rock como uma estética que articula performance, tecnologia e crítica cultural, reafirmando o LP como uma forma artística capaz de construir mundos narrativos complexos dentro da música popular.

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