Published August 18, 2025 | Version v1
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Quando os periféricos entram em cena – Tempo e memória na ditadura militar brasileira

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A peça O Último Carro, espetáculo do Grupo Opinião, com texto e direção de João das Neves foi escrita em 1964, mas estreou apenas em março de 1976. A montagem fez temporada no Rio de Janeiro e em São Paulo e alcançou sucesso de crítica e público, recebendo mais de vinte pre- miações. Em outras palavras, foi um dos grandes eventos da cena teatral brasileira dos anos 1970. O livro de Natalia Batista, fruto de uma tese de doutorado no Programa de História Social da USP, vai além da análise da montagem e seu contexto. Procura dar conta de um verdadeiro projeto autoral do lendário Grupo Opinião e de João das Neves, em particular, que ocupou um arco de tempo que remete ao contexto de 1964, até finalmente encontrar uma tradução cênica impactante em 1976. Para dar conta deste arco de tempo, Natalia Batista mobiliza o conceito de "peça-

-processo", que não diminui o impacto da obra enquanto "peça-evento".

O Último Carro encena a vida precária de trabalhadores em um trem desgovernado e sem maquinista. Os protagonistas funcionam como expressões de tipos sociais e políticos que compõem as classes populares: operários com consciência de classe, indivíduos místicos e fatalistas, lúmpens oportunistas. Alguns trabalhadores se organizam para evitar o desastre e tentam conduzir os demais passageiros para o último carro do trem, na tentativa não apenas de salvar a si mesmos, mas evitar uma tragédia coletiva.

O trem literal que carrega os trabalhadores também é o trem da história, poderosa metáfora na tradição cultural da esquerda e do materialismo histórico. Mas essa metáfora pode ser lida em duas cha- ves nesta "peça-processo". Se por um lado é a expressão da história

desgovernada e traída como produto do Golpe de 1964 e da ditadu- ra que se seguiu, particularmente trágica para a classe trabalhadora brasileira do campo e das cidades, também é a expressão da luta pela dignidade do popular e reafirmação da solidariedade de classe. Entre- tanto, longe de ser uma cantilena da vulgata marxista, tão em voga nos anos 1970, O Último Carro conseguiu emocionar o público e construir personagens carismáticos. Aliás, o público era colocado dentro de um vagão de trem, como se também fossem passageiros da história e da estória, em uma solução cênica que marcou época.

O livro de Natália dialoga com uma historiografia que vem colo- cando sob novas perspectivas a chamada cultura "nacional-popular" de esquerda, expressão das ideologias trabalhista e comunista que he- gemonizavam este campo ideológico antes de 1964. Lembremos que ao longo dos anos 1970 e, sobretudo, na virada para a década de 1980, o "nacional-popular" foi duramente criticado pela chamada "nova esquerda" que o acusava de render-se ao nacionalismo aliancista, di- luidor dos conflitos de classe, além de ser demagógico, paternalista e populista. As grandes greves operárias e movimentos sociais que ex- plodiram no final dos anos 1970 e culminaram na criação do Partido dos Trabalhadores se viu como um renascimento de uma classe ope- rária livre das amarras e ilusões do nacionalismo e do populismo de esquerda. O trem da história, para a Nova Esquerda, não estava des- governado pois tinha encontrado um novo maquinista na figura do novo sujeito popular auto-organizado que não precisava do intelectual ou do partido para fazer-se sujeito.

Esse debate interno à esquerda parecia condenar o nacional-po- pular e suas expressões estéticas e ideológicas ao limbo da história, símbolos de equívoco político e populismo cultural. Estreando um pouco antes deste debate explodir, O Último Carro era, precisamente, uma peça ligada à tradição do teatro comunista, saudada pelo Parti- dão e simpatizantes por ocasião da sua estreia como o renascimento deste tipo de teatro depois das diatribes das vanguardas teatrais que dominaram a cena a partir do final dos anos 1960. Não foram pou- cos os ensaistas e pesquisadores que analisaram a produção ligada ao nacional-popular de esquerda por esta lente pré-moldada para en- xergar algumas coisas e ocultar outras. Ainda que tenha cacoetes e pautas de época, como toda obra de arte, aliás, a produção cultural

nacional-popular vem sendo reavaliada alguns anos. Autores como Miliandre Garcia, Rodrigo Czajka, Miriam Hermeto, Reinaldo Cardenuto, Mariana Rosell, entre outros, vem revisando a cultura e as artes da esquerda nacional popular com um olhar mais aberto às inúmeras camadas e contradições das obras, sem considerá-las nem expressão heróica modelar e superior, nem uma expressão desde sempre conde- nada pela impostura política e superficialidade estética.

O livro de Natália Batista, seguindo esta perspectiva, tensiona não as várias camadas de tempo presentes na "peça-processo", mas também as inúmeras camadas de espaços (sociais) e vetores ideológicos na "peça-evento". Sua análise demonstra que entra a escrita de 1964 e a montagem de 1976 não há uma historicidade linear que teria reite- rado um projeto estético e político congelado e anacrônico, derrotado pela História. Natália demonstra, através de uma ampla pesquisa documental, que o trem de 1976-1978, anos de consagração da peça, ti- nha percorrido muitas distâncias. Nessa trajetória, o projeto autoral de João das Neves tinha incorporado as avaliações sobre o lugar da classe operária, colocado em xeque a certeza revolucionária dos anos 1960, incorporado a estética do teatro popular das periferias (tão profícuo na década de 1970) para temperar o viés burguês da dramaturgia de matriz comunista.

Nas palavras de Natália, a montagem do O Último Carro expressava um "hibridismo ideológico e formal" que por um lado atualizava a dra- maturgia comunista, mantendo o elogio à racionalidade e à vanguarda, mas incorporando o novo sujeito popular da Nova Esquerda, sobretu- do na encenação paulista: a crítica à aliança de classes, o protagonismo popular (inclusive com a incorporação de atores amadores do teatro popular), a crítica ao paternalismo dos intelectuais e da vanguarda.

Para os amantes e estudiosos do teatro, da história do Brasil recen- te e da história do teatro brasileiro, este livro se tornará fundamen- tal, feito a partir de um olhar historiográfico sem concepções teóricas preconcebidas ou parti pris estéticos que encaixotam obras complexas em análises simplistas. Trata-se de uma análise feita a partir da peça – texto, processo de produção, montagem que a explica em contexto e não a partir do contexto histórico. Enfim, uma análise que valoriza o trem da história, e seus múltiplos e imprevisíveis trilhos, mesmo quan- do ele parece desgovernado.

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