As intersecções, limites e confrontos entre "Espiritualidade sem Religião" e "Religião sem Espiritualidade": primeira leitura entre Kant e Maslow
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O presente artigo investiga criticamente a dissociação contemporânea entre espiritualidade e religião, tomando como eixo comparativo os pensamentos de Immanuel Kant e Abraham Maslow. A partir da tensão entre as noções de “espiritualidade sem religião” e “religião sem espiritualidade”, analisa-se como tais categorias se constituem como expressões da experiência humana em contextos marcados pela pluralidade de crenças, a secularização e a reconfiguração subjetiva do sagrado. Kant fundamenta a espiritualidade na razão prática e na autonomia moral, defendendo que a religião só é legítima quando se submete à ética racional e contribui para a dignidade humana. Já Maslow compreende a espiritualidade como dimensão da autorrealização, expressa por meio de experiências subjetivas de integração, sentido e transcendência, mesmo fora dos marcos religiosos tradicionais. A análise demonstra que espiritualidade e religião não são categorias excludentes, mas dimensões complementares que, embora distintas, podem se fecundar mutuamente quando articuladas por valores éticos e pela busca genuína de sentido. O estudo também problematiza fenômenos como a teologia da prosperidade e os movimentos de espiritualidade não-diretiva, apontando os riscos da instrumentalização da fé e da dissolução do compromisso moral. Por fim, sugere-se a ampliação dos referenciais teóricos para além do Ocidente e a realização de pesquisas empíricas sobre vivências espirituais cotidianas. Conclui-se que a espiritualidade ética e reflexiva permanece como via legítima de construção de sentido, sobretudo quando aliada à responsabilidade moral e ao reconhecimento da alteridade.