Published December 10, 2024 | Version v1
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Experimentos literários com a psicanálise e a filosofia

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Pode parecer fora de lugar empregar “experimento” para designar um conjunto de ensaios sobre textos literários, a considerar que o termo faz parte do léxico das chamadas ciências duras, embora também se empregue no campo do social. Mais comumente empregado na atividade científica, “experimento” é um método de investigação cujo propósito consiste em testar hipóteses e acercar-se da verdade de determinados fenômenos, a fim de melhor explicar o mundo observado. Restrito à prática de laboratórios, mesmo que também se possa fazer experimentações em campo, segue premissas de controle e abordagem bem definidas, e rege-se pela relação de causa e efeito, de modo a tornar segura a confirmação ou não de uma teoria.

Embora muito já se tenha dito sobre os riscos da aplicação de métodos científicos ao domínio das obras do espírito, entre as quais se inclui o fazer literário, querela que remete ao século XIX e às discussões iniciais em torno da hermenêutica moderna, não parece de todo equivocado pensar uma atividade literária em termos de experimento, apenas se exigiria maior atenção ao que se pretende com um desvio desta monta, e assim experimentar estender ao ramo literário aspectos que estariam na base do fazer científico que zela pela exatidão.

Se ali se trata de seguir uma hipótese e cercar os objetos de modo a confirmá-la ou não; se está em jogo a observação de causas para as quais os efeitos são associados e, nesta direção, estabelecer a ligação entre um conjunto de eventos; se ali parte-se de uma teoria a qual será confirmada ou infirmada pelas conclusões dos cientistas e suas notas precisas – a aplicação à literatura, segundo a ideia aqui proposta, de pelo menos nomear certo modo de aproximar-se dos textos literários, de neles penetrar e fazer cintilar o sentido, não dispensa que, da definição de “experimento”, se possa manter algumas nuances, ainda que não seja pretensão retomar a já caduca disputa de métodos entre ciências naturais e ciências do espírito.

A abordagem de um texto literário, quando dele não se espera apenas entretenimento, logo, quando a ele se estende a postura crítico-reflexiva, também requer método e definição de procedimentos-guia, bem como com ele também se pode trabalhar segundo o regime das hipóteses. E aqui, uma teoria se torna o ponto de partida de aproximação, senão para a confirmar, talvez para ter um norte que torne possível fazer saltar do papel o sentido do texto, mesmo que se compreenda que não há segurança quanto ao alcance total do que um texto literário, como outros de natureza semelhante, que se colocam a serviço da tradução da vida humana, possa permitir.

Se, como atividade acadêmico-reflexiva, a ocupação com a literatura se vale de métodos, procedimentos e teorias, dela não se pode esperar a certeza e exatidão que parece em princípio animar as ações dos cientistas em seus laboratórios ou no trabalho de observação no campo. É este o sentido aqui empregado de “experimentos literários”, como exercício de aplicação de uma teoria à leitura ou exame de um conto ou um romance, mas também a um aspecto da vida de um escritor que permitiria indagar a motivação por trás da sua escrita. No entanto, a considerar que o experimento científico visa a confirmação de uma teoria ou de uma hipótese, para a qual muitas vezes o cientista assemelha-se ao torturador em face do objeto, o significado aqui empregado para experimento literário segue direção oposta.

Em vez de confirmar a exatidão de uma teoria, faz-se da teoria o caminho para explorar o universo de sentido por vezes velado de um texto literário, face ao qual a teoria é colocada a serviço da compreensão e interpretação, sob a perspectiva de que dela se torna possível, mais que penetrá-lo, também com ele criar e produzir sentido. Os ensaios aqui publicados são experimentos desta ordem, os quais se servem da psicanálise e da filosofia. Trata-se de, com base no manejo do método de investigação do inconsciente ou na construção das ideias ou interpretações do mundo na filosofia, experimentá-las no exame de textos literários, “testar” até onde é possível ir ao lançar mão das investigações psicanalíticas e das elaborações filosóficas.

Hoje muito explorada, a relação entre psicanálise e literatura talvez tenha seu início quando em 1908 Freud afirma ser o escritor um parceiro imprescindível para a sua ainda recente descoberta. O Dichter é um conhecedor da alma humana, e em muito se antecipa àquilo que o psicanalista busca desvendar a partir das falas e associações dos seus pacientes, a saber, os desejos reprimidos. Segue-se daí uma série de estudos do alemão, cujo objetivo consistiria em fazer agitar as suas descobertas com a literatura. Numa alternância entre ampliar, com o auxílio dos textos literários, o saber em construção ou mesmo investindo numa interpretação de obras e escritores, os laços entre psicanálise e literatura se estreitam.

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