Do Lar à Cena Isto não é uma mulata, Violetas e algumas palavras sobre mulheres, teatro e política
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Em um curtíssimo espaço de tempo, me vejo diante da oportunidade de elaborar um projeto de pesquisa a ser desenvolvido em um estágio pós-doutoral no Programa de Pós-Graduação em Literatura e Interculturalidade da Universidade Estadual da Paraíba.
Embora no “susto”, uma certeza orientava as minhas ideias: eu iria trabalhar com a produção cênica e dramatúrgica de autoria de mulheres no Nordeste brasileiro contemporâneo, mais especificamente, no recorte entre os anos de 2015 e 2021.
O ponto inicial não era aleatório. Em abril de 2015, defendi minha dissertação de Mestrado, cujo objeto de estudo foi a assim pretendida “dramaturgia brasileira contemporânea” (no singular mesmo). O corpus? Peças de três dramatugos (do gênero masculino mesmo) atuantes no Sudeste do país. Na ocasião da defesa, a contradição entre a localidade do corpus elegido e a esfera maior em que se produziria a dramaturgia brasileira na contemporaneidade, isto é, as experiências realizadas ao longo das cinco macroregiões do país, me foi apontada. E o incômodo dessa percepção se manteve, na verdade, crescendo, à medida que eu tomava consciência da recorrência de minha posição em outras pesquisas na área, ao participar de eventos acadêmicos voltados à Dramaturgia, onde ouvia reflexões fruto de pesquisas em torno, basicamente, dos mesmos nomes, das mesmas autorias, já ratificadas e, arrisco dizer, em vias de serem canonizadas pela Academia. Por sua vez, no âmbito do mercado literário, as pouquíssimas editoras que se dedicam, hoje, à publicação de dramaturgia contemporânea – entre as quais destaco os trabalhos da Cobogó (RJ) e da Javali (MG) – têm lançado, não exclusivamente, mas em boa medida, títulos de autoria ou de dramaturgas e dramaturgos estrangeiros, cujas obras foram encenadas por companhias/artistas nacionais e tiveram sucesso de público e de crítica; ou de dramaturgas e dramaturgos brasileiras/os, muitas vezes pertencentes a essas mesmas companhias, de quem as montagens dos textos publicados também já conquistaram prestígio no meio teatral. Mas o ponto principal, objeto de minha crítica aqui, é: tratam-se, via de regra, de produções oriundas do mesmo eixo, do mesmo centro, qual seja: o Sudeste do país – porque sim, ainda é pertinente falar em eixo e em centro na dinâmica de produção cultural nacional, ainda que, numa perspectiva otimista, sob a forma de resíduo. Se pensarmos bem, estamos diante de um ciclo que se retroalimenta, pois, se se disponibiliza os textos desses espetáculos, se viabiliza a leitura, a pesquisa e a produção crítica sobre eles. E se eles têm sucesso de crítica, tendem a ser mais bem vendidos. Mas e o que é produzido nas margens? Quem pesquisa, critica, edita e publica esses espetáculos e seus textos? Esse espaço parece estar reservado às editoras universitárias e às publicações independentes.