Published December 28, 2022 | Version v1
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Plataformização da Indústria Cultural: produções contingentes no Amazon Kindle Unlimited

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Plataformas online têm se tornado fonte de informação, trabalho e entretenimento para cada vez mais usuários no mundo e têm subsidiado a criação de produtos culturais que respondem a demandas do mercado, sendo moldados e retrabalhados conforme preferências indicadas pelos usuários. Poell e Nieborg (2018) chamam de “mercadoria cultural contingente” esses produtos e serviços oferecidos e circulados por meio de plataformas digitais, na esteira do capitalismo de plataforma (SRNICEK, 2016). Neste estudo, analisamos como o mercado editorial pode ser influenciado pelo fenômeno da plataformização da indústria cultural. Nosso foco é o Kindle Unlimited, streaming de leitura da Amazon. Acompanhamos por uma semana a lista dos 100 ebooks mais vendidos na versão brasileira da plataforma, selecionando os 10 primeiros do ranking nesse período para analisar suas características editoriais e métricas em comum e observar se esses bestsellers podem ser considerados mercadorias culturais contingentes. O processo de organização de dados de bilhões de usuários, que permite saber que tipo de conteúdo “funciona” ou “não funciona” para as audiências, numa perspectiva de visibilidade e performance, é conhecido como datificação (VAN DIJCK, 2017). Essa característica impulsiona remodulações, estimulando um círculo de contingenciamento: produtores de conteúdo rastreiam preferências de audiências e (re)modelam processos de produção com ajuda das possibilidades de reconfiguração de design que as plataformas oferecem. Como consequência, aumenta-se a tendência de uma produção cultural orientada por escolhas do usuário, subordinada ao regime econômico das plataformas. Assim, a lógica algorítmica tende a tomar o lugar da lógica editorial na produção cultural, sendo a primeira baseada em um refinado rastreamento da atividade dos usuários e a segunda nas escolhas de especialistas. É como se houvesse agora uma curadoria algorítmica. Ao refletir sobre o quanto a plataformização da indústria cultural robustece a tendência de acumulação de capital nas mãos de poucas empresas e o quanto reforça a natureza precária e exploratória do trabalho cultural (neste caso específico, o trabalho dos escritores), propomo-nos a olhar criticamente para entrelaçamentos entre técnicas e tecnologias em nosso tempo sociotécnico. Os resultados do estudo indicam que há escritores publicados no Kindle Unlimited que estão submetidos à curadoria algorítmica. Diante dessa constatação, é preciso fomentar ações de apropriação, contrafluxo e resistência não só para evitar o rebaixamento da qualidade dos produtos culturais no mercado editorial, mas também para frear a precarização do trabalho dos profissionais envolvidos.

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GT 6 - Luana Cruz e Pollyanna Vechio.pdf

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