Apresentamos o caso de um rapaz de 10 anos sem historial de interesse, com gonalgia bilateral, dores nas costas e lombares após uma queda de uma bicicleta há 4 dias. Ao ser examinado tinha preservado a mobilidade activa e passiva com dor em ambos os membros inferiores (MMII). Não houve sinais de fracturas ou alterações neurológicas. Foi prescrito repouso, frio local e tratamento anti-inflamatório. Após 48 horas, a doente regressou por dores persistentes, perda de força, parestesia nos membros inferiores, dificuldade em estar de pé e andar e incontinência urinária. O exame físico revelou uma diminuição da força e uma sensação alterada em ambos os membros inferiores das extremidades inferiores. Suspeitando de mielite transversal, o paciente foi encaminhado para o departamento de urgências do hospital. Na admissão, as análises ao sangue estavam normais, o estudo do líquido cefalorraquidiano revelou pleocitose moderada, sem a presença de bandas IgG oligoclonais; o electroencefalograma não mostrou alterações e os potenciais evocados mostraram paralisia e espasticidade do MMII, hiporreflexia e Babinsky bilateral, ausência de reflexos abdominais e cremasterais, hiperalgesia e disestesia do tronco e do MMII. O electromiograma revelou uma sensação somatossensorial medular reduzida através das cordas posteriores, sem condução através da corda direita e uma diminuição parcial da corda esquerda. A ressonância magnética (RM) do cérebro era normal, contudo, a RM da coluna vertebral mostrou uma lesão expansiva ao nível da medula espinal de D1 a D6 compatível com mielite transversa.

Vinte e quatro horas após a admissão, o paciente apresentou dores intensas no olho direito com perda súbita da acuidade visual. Foi avaliado por oftalmologia e foi feito um diagnóstico de neurite óptica direita.
Tendo em conta a presença de mielite transversa e neurite óptica, com RM do cérebro que não preenchia os critérios de esclerose múltipla e RM da coluna vertebral mostrando uma lesão de três ou mais segmentos vertebrais (D1 a D6), foi realizado um teste de anticorpos anti-acuoporina-4, que foi negativo. Com base nas manifestações clínicas, evolução e apesar do anticorpo negativo, o doente foi diagnosticado com neuromielite óptica ou doença de Devic (ver quadro 1 de critérios de diagnóstico).

O paciente foi inicialmente tratado com metilprednisolona intravenosa na dose de 1 g/dia sem melhoramento, pelo que a plasmaférese foi realizada com boa evolução clínica.
O paciente foi acompanhado por neurologia, oftalmologia e urologia com melhoramento progressivo e diminuição progressiva da corticoterapia. Catorze meses depois, o paciente apresentou uma recuperação completa da força e sensibilidade dos membros inferiores, marcha normal, reflexos normais, ausência de espasticidade, ataxia ou dismetria; ocasionalmente apresentou uma hiperaestesia lombar dolorosa de natureza autolimitada. No olho direito, ele manteve a visão próxima, com atenuação da percepção da cor, embora tenha conseguido recuperar 70% da acuidade visual. A enurese nocturna persiste devido à espasticidade da bexiga, que continua a ser tratada com desmopressina.


