Uma mulher de 66 anos de idade foi submetida a histerectomia mais adnexectomia bilateral e linfadenectomia para adenocarcinoma endometrial. Antecedentes: distrofia miotónica tipo I (DM tipo I) ou doença de Steinert, pacemaker para AVB completo, doença pulmonar restritiva que requer ventilação mecânica não invasiva nocturna (VNI), doença hepática crónica não-viral com hipertransaminasemia a ser controlada pelo tracto digestivo, hipotiroidismo a ser tratado com levotirosina e tensão arterial elevada a ser tratada com candesartan. Intervenções cirúrgicas anteriores: colecistectomia por laparotomia há 20 anos e cirurgia bilateral de cataratas, ambas sem complicações.
- ECG: ritmo sinusal. Captura ventricular do pacemaker. Completo bloco de ramo esquerdo.
- Raio-x do tórax: padrão restritivo. Ligeira efusão pleural esquerda.
- Espirometria: FEV1 0,88 l (45,3%), FVC 1,16 L (49,6%), FEV1/FVC = 0,76.
- Gases sanguíneos arteriais: pH 7,44, PO2 53 mmHg, PCO2 51 mmHg, HCO3 34,6 mmol/l.
- Hemograma: Hb 11,4 g/dl, Ht 35,6%, Plaquetas 85x1000/μl, Leucócitos 4,6x1000/μl
- Coagulação: actividade de protrombina 80%, aPTT 24,8 s.
À chegada à sala de operações, o paciente estava normotenso, normotérmico e com saturação arterial de oxigénio de 99% com 02 em óculos nasais a 3 litros por minuto. Foi evitada a pré-medicação com benzodiazepinas.
Foi decidido realizar anestesia intratecal com bupivacaína hiperbárica 0,5%, 9 mg, mais 5 μg de fentanil; a técnica foi realizada sem incidentes. Na primeira hora, foram administrados paracetamol 1 g iv, metamizol 2 g iv, dexametasona 4 mg iv, dexketoprofeno 50 mg iv e terapia de fluidos com aquecedor. Durante esta primeira hora, o útero e a adnexa foram ressecados. Após 100 minutos e coincidindo com a linfadenectomia ilíaca e para-aórtica, o paciente apresentou dor, pelo que foi decidido injectar 10 mg de bolus ketamina (evitando o uso de benzodiazepinas, morfina e propofol). Foi utilizado um total de 40 mg de cetamina, proporcionando uma analgesia satisfatória sem efeitos secundários. A mecânica ventilatória e a saturação de O2 permaneceram inalteradas durante a operação, sendo o único suporte respiratório a terapia de oxigénio que ela já recebia na enfermaria (O2 em óculos nasais a 3 l/min).
A cirurgia foi concluída após 150 minutos sem incidentes. Na unidade de reanimação, administraram-se NIV (CPAP a 5 cmH2O), bloco percutâneo transabdominal bilateral (TAP) (7,5 ml de ropivacaína 0,5% e 7,5 ml de mepivacaína 1% em cada abdómen) e bloco rectal abdominal (5 ml de ropivacaína 0,5% em cada lado), ambos eficazes. A analgesia foi prescrita para a enfermaria de internamento evitando opiáceos, onde chegou três horas após a admissão à reanimação.
Durante a sua estadia na enfermaria, a paciente permaneceu estável e com dores controladas, e teve alta do hospital no quinto dia após a operação.


