Homem, 34 anos de idade, fumador de 15 cigarros por dia, com história de esofagite péptica, hérnia de hiato e asma brônquica não alérgica. Pai diabético. Apresentou dores abdominais graves no flanco esquerdo, fezes pastosas e sons abdominais aumentados, e foi avaliado nos cuidados primários, interpretando inicialmente os sintomas como uma possível gastroenterite aguda. O exame revelou uma ligeira dor à palpação na hemiabdomina esquerda e um ligeiro aumento da peristaltismo. Dada a persistência da dor, foram solicitados vários testes complementares.
Enquanto aguardava mais avaliações, 10 dias após a sua visita aos cuidados primários, veio ao departamento de urgência do hospital para um novo episódio de dor abdominal intensa no flanco esquerdo, desta vez acompanhada de diaforese, nervosismo e palidez cutânea. Foi avaliado três vezes no departamento de emergência, diagnosticado e tratado como cólica renal. Pressão arterial: 136/95 mm Hg; frequência cardíaca: 89 l/min; temperatura: 37,7o; sudorese. O exame abdominal revelou dor no flanco esquerdo com sucção renal esquerda positiva. O resto do exame físico foi normal. O tórax e as radiografias abdominais eram normais. Houve leucocitose mínima (10.500), hiponatémia ligeira e CRP=13.
Como não houve melhoria clínica com tratamento sintomático, foi realizada uma ecografia abdomino-pelvica mostrando um tumor na glândula adrenal esquerda. Após este resultado, foi solicitado um TAC, mostrando uma massa de 6,5 cm de diâmetro, dependendo da glândula adrenal esquerda, o que levou a um diagnóstico diferencial de feocromocitoma ou carcinoma adrenal.

Na sequência deste resultado, o paciente foi encaminhado para o Departamento de Urologia e daí para o Departamento de Medicina Interna para um estudo funcional numa tentativa de excluir o feocromocitoma. A determinação das metanefrinas e catecolaminas urinárias mostrou uma leitura de mais de cinco vezes o valor normal para o total de metanefrinas urinárias e catecolaminas urinárias livres. É feito um diagnóstico de uma massa adrenal esquerda funcional, com marcada elevação de metanefrinas devido a um provável feocromocitoma. Uma vez estabelecido o diagnóstico de feocromocitoma, foi decidido realizar uma adrenalectomia total esquerda laparoscópica após bloqueio com dosazoxina 4 mg/dia. A análise anatomopatológica dos achados cirúrgicos mostrou que se tratava de um feocromocitoma maligno de 130 g e 6 x 6 cm, com necrose extensa, pleomorfismo celular marcado, mitoses atípicas abundantes (<50 x 10 cga), invasão capsular e um trombo tumoral numa veia de grande calibre (a veia pinçada), sem extensão extra-adrenal. O período trans-operatório passou sem complicações. Durante todo o processo o paciente apresenta valores normais de tensão arterial com bom estado geral, e não é efectuado qualquer tratamento.


