Homem de 78 anos, carpinteiro, ex-fumador há 22 anos, com historial de hipertensão, dislipidemia e doença isquémica do coração devido a enfarte agudo do miocárdio que exigiu dupla cirurgia de bypass coronário. A paciente foi submetida a cirurgia para neoplasia do cólon com o resultado anatomopatológico do adenocarcinoma de fase III (pT3pN2M0). Dado o historial patológico do doente, não é recomendado o uso de fluoropyrimidinas. Por esta razão, foi iniciado o tratamento quimioterápico adjuvante de acordo com o esquema TOMOX em doses ajustadas (raltitrexed 2,5 mg/m2 e oxaliplatina 100 mg/m2 de 3 em 3 semanas). Está previsto um total de 8 ciclos. A tolerância é boa. Na visita de acompanhamento antes do sétimo ciclo, o paciente referiu ter recebido tratamento antibiótico nos dias anteriores para uma infecção do tracto respiratório inferior diagnosticada pelo seu médico de família. Estava afebril, com astenia de grau II e ligeira deterioração da função renal, pelo que foi decidido adiar o ciclo. Nessa altura, as doses totais acumuladas de raltitrexed e oxaliplatina eram de 26 mg e 1,040 mg respectivamente.
Quarenta e oito horas após esta última visita, o paciente chegou ao departamento de emergência com uma febre de 38,5oC e dispneia ao mínimo esforço. A análise dos gases sanguíneos arteriais mostrou parâmetros compatíveis com uma insuficiência respiratória grave. A radiografia do tórax mostrou infiltrados pulmonares bilaterais e condensação duvidosa no lobo inferior direito. O paciente foi admitido por suspeita de pneumonia grave, e foi iniciada uma terapia antibiótica empírica de largo espectro e ventilação mecânica não invasiva. A ecocardiografia excluiu o tromboembolismo pulmonar. Após 48h, devido ao agravamento respiratório, o paciente foi transferido para a Unidade de Cuidados Intensivos (UCI), necessitando de entubação endotraqueal. O paciente foi classificado como insuficiência respiratória grave secundária à pneumonia adquirida na comunidade sem germes isolados versus toxicidade pulmonar devido a citostáticos associados à síndrome da angústia respiratória do adulto. Foram excluídas as interacções com a medicação crónica do doente. Os resultados dos estudos microbiológicos (sangue e expectoração), bem como a serologia para microrganismos atípicos, foram todos negativos. A tomografia computorizada do tórax mostrou um componente difuso de pneumonia intersticial. Tendo em conta estes resultados, e dada a evolução clínica do doente, decidiu-se iniciar um tratamento com doses elevadas de corticosteróides (prednisona 1mg/kg/dia), por suspeita de toxicidade pulmonar para os citostáticos. A evolução do paciente foi torpida, e ele morreu após 17 dias na UCI.


