Um paciente de 86 anos consultou a equipa de cirurgia maxilo-facial do Complexo Hospitalar de San José para um aumento assintomático do volume, de evolução indeterminada na zona anterior da mandíbula.
O paciente tinha uma história pessoal de hipertensão e diabetes tipo 2 controlada por tratamento médico convencional. Ela não tinha historial de consumo de tabaco ou álcool.
O exame físico revelou um grande aumento de volume na região mandibular anterior de consistência firme e doloroso à palpação. A pele e a mucosa sobrejacente à lesão eram normais, sem linfadenopatia associada. Também não houve nenhum envolvimento neurológico motor ou sensorial associado.
Foi solicitada uma tomografia computorizada (TAC), onde as imagens axiais mostraram uma lesão hipodensa com aspecto multilocular que se estendia desde a região correspondente à área canina direita até à região contralateral correspondente ao primeiro molar esquerdo, o que gerou abaulamento, desbaste e perfuração das tábuas ósseas. Foi programada uma biopsia incisional e foi instalado um tubo de drenagem a fim de descomprimir a lesão.

O exame histopatológico do espécime revelou uma cavidade cística forrada por um epitélio poli-estratificado paraqueratinizado com um basalto basal de células ciliadas com um núcleo hipercromático disposto numa paliçada. Com base nestas descobertas, a lesão foi diagnosticada como um tumor queratocístico odontogénico.

Com este diagnóstico foi decidido continuar com a terapia descompressiva e monitorizar o doente. Após 2 semanas, a paciente apresentou dor e impotência funcional que aumentaram ao ponto de a impedir de comer 2 meses depois de o dreno ter sido instalado. Com esta evolução, foi solicitado um novo TAC no qual foi confirmado que a terapia descompressiva não estava a cumprir o seu objectivo, uma vez que se observou um aumento do envolvimento dos tecidos em resultado da lesão, em relação às condições anteriores, apresentando clara destruição tanto das tabelas ósseas vestibulares como linguísticas. Três semanas após o procedimento de descompressão, e tendo em conta os novos achados clínicos e radiográficos, foi realizada a excisão da lesão mais curetagem e aplicação da solução de Carnoy durante 30 segundos no local da operação. O defeito ósseo subjacente foi reconstruído utilizando uma placa de reconstrução mandibular. A peça cirúrgica foi enviada para estudo histopatológico, que relatou a presença de uma membrana cística com tecido epitelial anaplásico, com perda de estratificação epitelial, pleomorfismo celular e nuclear, perda da relação núcleo/citoplasma, nucléolos proeminentes, entre outros. A proliferação neoplásica mostrou um padrão infiltrativo em direcção ao tecido conjuntivo subjacente. Em outras áreas da amostra, foram observados ninhos e ilhotas de proliferação epitelial na espessura da parede cística, que apresentavam as mesmas características anaplásicas. Com base nestes achados histopatológicos, foi feito um diagnóstico de carcinoma espinocelular intra-ósseo moderadamente diferenciado.
Em vista deste diagnóstico, foram solicitados testes de imagem, incluindo raio-X torácico, cintilografia óssea total e cintilografia óssea, o que excluiu metástases e/ou possíveis tumores primários.
O paciente foi encaminhado para tratamento oncológico e morreu de pneumonia.


