Homem de 70 anos de idade admitido por deterioração do estado geral, astenia, anorexia e perda de peso de 1 mês de duração. Tinha sido submetido a cirurgia para adenocarcinoma da próstata e tinha subsequentemente recebido várias sessões de radioterapia (dose total 70 Gy), a última das quais 12 meses antes da sua admissão, em tratamento com terapia hormonal. Desde o início do tratamento de radioterapia, o paciente relata uma mudança no ritmo intestinal, com diarreia e obstipação alternadas e dores de cólicas frequentes, acompanhadas de urgência e tenesmo de defecação. O exame físico revelou apenas um abdómen mole, depressivo, não doloroso, com sons aumentados e não patológicos, sem sinais obstrutivos, massas ou megalitismo. Não houve adenopatias, febre ou outras descobertas dignas de nota. Os testes laboratoriais mostraram leucocitose de 21.720 /mm3 (17,2% neutrófilos, 4,1% linfócitos, 2,4% monócitos e 75,3% eosinófilos), ESR 60 mm na primeira hora, CRP 38,80 mg/L, ferritina 481 ng/mL, factor reumatóide 800 como reagentes de fase aguda, hipoalbuminaemia de 2,2 g/dL sem alteração de outros marcadores de má absorção. As transaminases e as enzimas de colestase eram normais. Os anticorpos anti-nucleares, antimitocondrial e anti-mitocondrial foram negativos e o PSA foi de 0 ng/mL. A parasitologia das fezes em 3 amostras convenientemente recolhidas também foi negativa. A radiografia do tórax não mostrou alterações significativas. A colonoscopia foi realizada e a mucosa dos 30 cm explorados mostrou um aspecto fibrótico tubular com estirpes eritematosas, com estenose fibrótica regular a este nível que impedia a progressão. Foram feitas múltiplas biópsias mostrando uma inflamação aguda e crónica não específica, sem evidência de eosinófilos a qualquer nível, e o diagnóstico presuntivo era de colite actínica.

O TAC abdominopelvico com contraste intravenoso mostrou espessamento difuso dos pequenos laços intestinais ao nível do jejuno distal e do íleo, sem outras alterações. Não houve evidência de linfadenopatia a qualquer nível ou massa abdominal, com prostatectomia radical e espessamento da gordura perirectal, parede da bexiga e recto, provavelmente relacionada com radioterapia prévia.
Devido às alterações dos loops, foi realizado um trânsito intestinal que mostrou um espessamento discreto das válvulas coniventes ao nível do jejuno, com loops íleo pélvico de calibre reduzido, com separação tanto do jejuno como do resto do íleo devido ao espessamento parietal, tudo compatível como primeira possibilidade com a enterite actínica, sendo o último loop íleo de calibre normal com pregas conservadas.

Dado que os exames realizados apontavam para a radioterapia como a origem dos sintomas abdominais, e tendo razoavelmente descartado outras causas de eosinofilia periférica secundária, foi prescrito tratamento empírico com corticosteróides (metilprednisolona 1 mg/kg/dia durante 1 semana, com um regime de afilamento subsequente durante 3 meses) e nutrição parenteral, dada a deterioração progressiva do estado geral do paciente. Este tratamento resolveu completamente tanto o quadro clínico como as alterações analíticas, o que excluiu a origem central da eosinofilia.
Uma semana após ter iniciado o tratamento, o doente recebeu alta com um hemograma que revelou 5.280 leucócitos/mm3 com eosinófilos a 1%, ESR 27 mm na primeira hora e CRP 0,76 mg/L, com o diagnóstico por exclusão de enterite actínica e eosinofilia periférica secundária. Ele permaneceu assintomático e com testes laboratoriais normais.

