Um homem de 48 anos, diabético de longa data, mal controlado, que apresentou ao Departamento de Emergência do nosso hospital um historial de 5 dias de dor, edema e aumento da temperatura na pálpebra superior e inferior esquerda,
de acordo com o paciente, secundária a um traumatismo brusco que inicialmente causou uma pequena dermoabrasão.
À admissão, foi avaliado pela Oftalmologia e diagnosticado com celulite pré-septal. Oito horas após a admissão, desenvolveu um escândalo necrótico no tecido envolvido. Durante o primeiro dia de hospitalização foi submetido a limpeza cirúrgica e desbridamento de todo o tecido necrótico. O material foi enviado para cultura bacteriológica, identificando Streptococcus Pyogenes. Com base neste resultado, o doente foi avaliado por Doenças Infecciosas e o tratamento foi iniciado com Meropenem, Vancomycin, Clindamicina e Anfotericina.

No segundo dia de hospitalização, foi avaliado pela Clínica de Feridas do Departamento de Dermatologia e o tratamento foi iniciado com terapia de pressão negativa a 125 mmHg continuamente, com o objectivo de controlar o exsudado, promover a granulação e reduzir o espaço morto. Esta terapia foi suspensa 3 dias mais tarde (no quinto dia de hospitalização) devido à progressão do eritema para a porção palpebral contralateral. O paciente continuou nos cuidados de Oftalmologia e Dermatologia, sendo tratado com solução fisiológica e pensos à base de isodina e coberto com manchas de alginato, um procedimento que conseguiu controlar o processo infeccioso.

Quinze dias após a hospitalização, foi avaliado por Cirurgia Plástica e Reconstrutiva, que observou perda de pele de toda a pálpebra superior, perda parcial do músculo orbicularis oculi e levator (este último foi desinserido), boa granulação do tecido e perda focal da conjuntiva.

Um mês após a avaliação inicial, o paciente foi operado e o tecido de granulação foi desbridado até se conseguir um fecho parcial da pálpebra, identificando uma placa de alcatrão intacta. Realizámos abas locais para fechar defeitos na conjuntiva, canthotomia lateral, enxerto de plena espessura no canthus medial e aba do músculo frontalis musculocutaneus direito, que ligámos ao resquício super-externo do músculo orbicularis oculi da pálpebra.

Quatro semanas mais tarde, realizámos a secção do pedículo e o desbaste do retalho frontal, vendo que o paciente apresentava movimento palpebral dependente da miorrafia frontal com o remanescente orbicularis oculi.

O paciente persistiu com maior volume e eversão da pálpebra reconstruída, pelo que 2 meses mais tarde afinámos novamente a aba e corrigimos os lagofthalmos por cantaxia lateral, libertando o ligamento palpebral e reinserindo-o na borda orbital.

Após 2 anos de evolução, o globo ocular foi coberto com fechamento e abertura completa da pálpebra, sem repercussões visuais. Não foi necessário nenhum novo tratamento cirúrgico.


