Um homem de 64 anos relatou uma perda de visão bilateral, progressiva e indolor que afectou o olho esquerdo (OI) durante 7 dias e que nas últimas 48 horas também tinha começado a afectar o olho direito (DO). O paciente tinha um historial de tabagismo intenso e a morte de um irmão devido a neoplasia pulmonar. O exame oftalmológico revelou uma acuidade visual corrigida de 0,4 no olho direito e movimento da mão no olho esquerdo. A pressão intra-ocular e o segmento anterior eram normais, e a funduscopia revelou vitrite moderada em ambos os olhos, com ligeira hiperemia da papila no OD, e palidez papilar no OI. Decidiu-se admitir o doente para investigação adicional, com o diagnóstico inicial de papilite com vitrite bilateral.

O exame neurológico, o hemograma e a bioquímica foram normais. A radiografia do tórax mostrou um ligeiro espessamento do hilo pulmonar direito, e a tomografia craniana foi normal. A punção lombar mostrou apenas uma discreta elevação de proteínas. Com base nestas descobertas, foi decidido iniciar o tratamento com bolos corticosteróides e terapia antiplaquetária.

A angiofluoresceinografia mostrou hipercapitação na papila sem sinais de vasculite. Os potenciais evocados eram normais em DO e compatíveis com a neuropatia axonal em OI. O electroretinograma e a ressonância magnética cerebral estavam normais. A serologia, imunologia e os marcadores tumorais habituais foram negativos.
Com base nos testes obtidos, foi excluída uma etiologia infecciosa, vascular ou desmielinizante, pelo que foi avaliada uma etiologia infiltrativa ou uma síndrome paraneoplásica. Foi solicitado um TAC tóraco-abdominal, que mostrava uma imagem de 3 cm no hilo direito, compatível com a adenopatia. A broncoscopia mostrou um alargamento da carina, e a citologia foi negativa para a malignidade. Foi proposto um estudo PET para melhor avaliar a linfadenopatia e um encaminhamento para cirurgia torácica para mediastinoscopia. Além disso, foram recolhidas amostras de líquido cefalorraquidiano, plasma e humor aquoso para estudar o autoanticorpo CRMP-5-IgG, o que foi positivo nas duas primeiras amostras. A positividade do CRMP-5-IgG e a presença de neurite está associada, em 62,5% dos casos, à existência de um pequeno carcinoma pulmonar de células (2,3).

Com base nestes dados, foi decidido cancelar o estudo PET e realizar uma mediastinoscopia, que foi reportada como um carcinoma microcítico do pulmão. O departamento de oncologia classificou-o como carcinoma microcítico de estágio limitado e iniciou o tratamento com quimioterapia e radioterapia.
A resposta inicial ao tratamento com corticosteróides foi boa, melhorando a visão para 0,7-0,3 aos 15 dias e atingindo uma acuidade visual final aos seis meses, quando considerámos o estudo encerrado, de 0,8 em DO e 0,6 em OI, com uma restituição ad integrum da imagem funduscópica.


