Tanto sangue correu desde a minha última carta.
O tempo passa, passo a passo, vagarosamente, e a memória registra cada passo passado e
o transforma em lembrança.
E se o tempo passa, o sangue corre, morto a morto, velosmente, e a consciência assume
cada morto matado e o transforma em neurose.
E o passo do tempo e a maratona dos mortos, num caminhar paralelo, desembocam no beco
sem saída, no qual se dão cita todos os traumas.
E os dias, que nada mais são do que o sangue do tempo, se evaporam no cumputo dos mortos,
que não passam de ser coágulos das guerras, é, bem aventurados os não-judeus, porque
não precisarão carregar a vergonha dos massacres carregados de mortos que não precisavam morrer,
bem aventurados os judeus que estão fora de Israel, porque não precisarão se asfixiar
no cheiro de fascismo que emana deste país, bem aventurados os judeus que, mesmo morando
em Israel, se recusam a ser cúmplices das atrocidades dos últimos tempos, e por isso
enchem as prisões militares sob a acusação de se terem recusado a matar pelo simples
ódio dos governantes para com os árabes.
Eu abocontava que na Polônia diantes da Segunda Guerra Mundial, alguns judeus, quando passavam
na frente de uma igreja, cuspiam, sim cuspiam, e eu achava que pelo fato de alguns judeus
cuspirem na porta da igreja, não se justificaria que os poloneses odiassem a todos os judeus.
Eu estava enganado, o ser humano tende a generalizar, os pretos são ignorantes, todos
os judeus são milionários, os russos são todos comunistas, e entretanto há tantos pretos
cultos e tantos judeus pobres e não menos russos capitalistas.
E daí o medo, quase a certeza de que também esta vez surja o grito, viu que os judeus
fizeram no Líbano, e será tão difícil quanto impossível dizer que não todos os judeus,
mas um grupo que começou sua carreira terrorista 40 ou mais anos atrás, pondo bombas nos
hotéis de Jerusalém ou nos colegios nos quais estudavam os filhos dos oficiais ingleses,
e esse grupo, hoje no poder, manipula os meios da sua disposição e chega ao absurdo do
que aconteceu no Líbano.
Não, ninguém vai separar entre bom judeus e mau judeus, o mundo já prepara um novo
forno crematório e fomos nós que o encomendamos e somos nós que fornecemos o combustível
e seremos nós os consumidos e não sem culpa, culpa dos que fizeram que fizeram no Líbano,
culpa dos que não fizeram mas calaram, culpa dos que falaram mas não gritaram, culpa dos
que apenas gritaram.
Agora que compreendi para que que Deus escolheu o povo de Israel, enfim, este eu resumo de
um presente e de um passado, qualquer semelhança entre ambos não é mera coincidência.
O texto foi escrito na cidade de Rehovot, em Israel, no dia 31 de outubro de 1982.
