Olha a sua volta, o mundo não é só o que você vê, as coisas não são apenas o que apareçam ser.
Existem muitos sentimentos, afetos, medos, emoções, desejos, pensamentos que nem sempre a gente percebe,
mas que atravessam e determinam as nossas vidas.
É a dimensão subjetiva.
Reconhecer sua presença pode fazer toda a diferença.
Essa é a dona Firmina.
Ela sempre teve muitas pessoas a sua volta, seus irmãos, pais, filhos, primos, tios, vizinhos, amigos, inimigos, colegas,
pessoas que conheciam no ônibus, que esbarrou na rua, conversou na fila do banco,
ou que ainda vai conhecer, discutir, abraçar, gostar, odiar ou nem perceber,
mas elas estarão lá, a sua volta.
Todas essas pessoas, todas essas possibilidades.
Agora imagina se não tivesse ninguém, nunca.
Como seria dona Firmina?
Tenho alegria de viver entre meus parentes, meus filhos, meus netos, meus bisnetos, minhas na hora.
Acho que essa possibilidade não existe.
Já digo que a pessoa conseguir viver sem ter outro ser humano por perto.
Acho que não consegue.
Seria um salvagem, um casão na vila.
Com certeza ela me faltar tudo.
O tudo pra mim é ter alguém.
Nem que seja uma pessoa só, mas ter alguém ao meu redor.
Nesse local onde nós nascemos, nós criamos a nossa cultura.
O jeito que eu fui criado aqui não deve ser a mesma coisa em outro lugar.
A gente não mais se sabendo que é ser humano, a gente faz a gente.
Na natureza, um dia nunca é igual ao outro, um dia sempre é um desafio.
O animal ele precisa procurar alimento, ele precisa se defender dos predadores,
ele precisa defender o território, cuidar dos filhotes, etc.
Então no zoológico, o animal ele não tem esses intempéries da natureza.
É um ambiente mais monóctono, diríamos assim.
Existem vários casos de crianças selvagens que cresceram com um contato humano mínimo, ou nenhum.
Aquilo que consideramos ser próprios seres humanos, como o riso ou o sorriso,
jamais iluminou o gosto das crianças isoladas.
Gente precisa de gente?
Pessoas não são pessoas sem outros seres humanos?
Todo o sujeito que nasce já é parte de nosso ambiente humano.
É sócio de nossa sociedade, como a dona Firmina.
Mas será que ela sempre terá lugar neste clube?
Quem é que nós não queremos mais em nossa sociedade?
Quem nós isolamos intencionalmente?
Qual desses portões é de um hospício?
Qual é de um asilo?
Qual é de um clube?
E qual é de um presívio?
Esse é um clube.
O portão separa o resto do mundo dos sócios que vem aqui se divertir.
Esse é um asilo.
O portão separa e isola do resto do mundo pessoas que chamamos de velhas.
Eu sou muito festeira.
Então eu sinto falta das festas.
Ah, eu sinto falta das coisas, mas o que eu vou fazer?
A gente fica aqui, mas aqui é muito bom.
As direturas são muito boas.
É tudo farto.
A gente tem café, tem comida, mas é tudo papo.
Ele dizia que eu sinto um pouquinho de saudade do pessoal, mas depois passa.
Sinceramente, eu nem sei porquê que eu estou aqui.
Esse é um hospício.
O portão separa e isola do mundo pessoas que chamamos de loucas.
Quando eu não tinha liberdade de não sair,
eu ficava sozinho isolado, triste, né?
Vendo de companheiro sofrer com o aleator choque, com covadia.
Eu pensei que foi uma vida que eu não queria contar hoje.
Eu até choro porque foi uma passagem que eu passei nos 40 anos aqui dentro.
Fomos tudo com eles.
Era a colônia de prisioneiro, agora a colônia de liberdade.
Estou feliz porque, pelo menos,
mostra que o mundo que é o que eu tenho cura
através de carinho, de amor, de atenção,
eu tenho total liberdade pra me passear com esse mundo.
Esse é um presídio.
O portão separa e isola do mundo pessoas que chamamos de criminosos.
Pra ter algum crime, tem que ir pra presão.
Eu acho que é uma cria de bandidos.
Deve ser mais rigoroso, não ser tão conivente, tão benéfica.
Serve pra corrigir as pessoas
ou pra piorar a situação de quem tá preso.
Mas nem sempre foi assim.
Na Grácia Antiga, uma punição para criminosos era o desterro, o banimento.
Durante o Império Babilônico,
apenas do talião, previa a punição na mesma medida para o crime.
Olho por olho, dente por dente.
Na sociedade europeia, até o século XVIII,
eram comuns castigos públicos e piadosos aos criminosos, os suplicios.
Só no início do século XIX,
é que a principal punição para os crimes passou a ser a prisão,
uma ideia humanitária que pretendia acabar com a era dos suplicios.
De acordo com a lei de execução penal,
a prisão deve proporcionar condições
para a harmônica integração social do condenado,
objetivando prevenir o crime
e orientar o retorno à convivência em sociedade.
A prisão não é o que parece.
Não é fácil.
Pra quem tem família aqui dentro e pra quem está lá fora também.
É difícil, isso é muito falta, muito falta mesmo.
Cada visita é uma renovação, é algo diferente, sabe?
Já são 13 anos e 13 dias, né, meu irmão?
Que eles estão pra cá e eu pra lá.
Quando você chega na delegacia, são 40, 50, 60 presos dentro do Marcelo,
um pouquinho maior de que essa.
Então você começa a refletir, você tinha uma casa,
você tinha uma família, você tinha um lar,
você tinha um meio social,
você vivia no meio, no ambiente social,
e de repente você se encontra naquele lugar
que você nunca imaginou de estar um dia.
Então é horrível, só quem está mesmo pra poder saber o que sente.
Eu acho que ele conta, né, os dias dele sair de lá pra ver nós,
e se não eu duas tivesse abandonado ele?
Eu sinto muito momentos assim da minha fila,
ela tinha sete anos quando eu vim preso.
Então a minha filha fazia trabalhinho de escola e tal,
ela chegava em casa, pai, tem um trabalhinho da escola.
Aí eu pegava o carro, vamos lá na sua avó, vamos na sua tia,
vamos buscar jornal, revista, eu ajudava.
Então esse momento a minha filha está com 15 anos hoje.
Então hoje ela às vezes vem na visita e ela fala.
Só porque ele foi lá pra dentro e eu vou abandonar,
eu vou virar as costas e não.
Eu tenho que dar mais amor ainda pra ele sair de lá melhor do que ele entrou.
A visita é...
80% da recuperação do preso é a visita.
Você aguarda, você faz planos,
você arruma as vezes o cubículo.
Eu pensava que eu vivia na vida real afora,
mas aqui a realidade da vida, aqui ela é crua.
É nua e crua, a vida aqui é completamente diferente da que eu vivia afora.
Eu achava que porque eu tinha que pagar a conta de água,
a conta de energia, pagar o aluguel da minha casa, dar educação a meu filho,
eu achava que isso aí eu estava fazendo coisa demais já,
mas é não, eu trocaria tudo pra estar fazendo aquilo.
Eu às vezes sinto falta do meu pai me dar uma bronca.
Minha mãe me dá, minha mãe é maravilhosa.
Mas aquela coisa do pai ser mais sério com o filho,
que geralmente acontece, de certa forma faz falta.
Quando eu passei lá aqueles portões, eu vou ver o meu pai poder abraçar, poder beijar.
É assim, é uma ação muito grande,
porque de certa forma isso é uma pegada, meu pai.
Eu acho que é o dia mais importante,
é o dia da visita no cinema intersexual.
Não só pra mim, como pra todos.
É que é um dia que antes preparamos pra receber as visita,
é um dia que a gente vai receber um pouco da sociedade no cinema intersexual.
A prisão é o isolamento.
Então que é a liberdade?
Os sentimentos e emoções anseios de ser sócio de nossa sociedade
fazem parte da dimensão subjetiva.
Todo mundo já fez coisa errada.
Deve ter feito muitas coisas erradas.
Quem fala que não infligiu a lei é difícil de acreditar.
A maioria vive de branda a lei, né, da minha jeito.
Eu acho que vai mais preso a classe pobre.
Quem deveria não estar preso com certeza?
Teu único que é policial e foi preso, né?
Tem colega meu até que tá no Alivó Bruno.
Fei coisa errada e teve que ir pagar, né?
Quem é que vai preso?
Daniela é pobre como a grande maioria dos presos.
Não completou o primeiro grau como uma boa parte deles.
E tem até 30 anos de idade como quase a metade.
O crime de Daniela foi roubar uma lata de leite.
A pessoa foi pedir e ninguém dá, né?
De logo você tá nova, vai trabalhar, vai fazer isso, vai fazer aquilo.
E a única pessoa que vai marcar o peco é que eu não tenho um documento.
Eu não tenho identidade, eu não tenho nada.
E a outra que nem escrevei, nem leio, nem sabei nada assim.
Aí pronto, aí eu disse então pra minha filha morrer de fome,
eu fui no mercado e roubei uma lata de leite.
Porque eu não tive a minha filha pedir e comer aí, sentei.
Aí eu peguei e fui roubar.
Aí pronto, aí ele pegou e caminhou a gente pra colônia.
A gente bateu as papéis, como não se assinar,
me lê o dedo e a gente foi caminhado.
A minha filha ficou com a minha mãe.
A minha mãe também não tinha condições de levar as coisas pra gente.
E quando eu fui pra cadeia, ela tinha um...
Queria fazer dois anos.
Eu pensava que eu não ia nem passar isso todo dia.
Eu pensava que se eu fosse pra lá, eu ia passar pelo menos um mês, dois meses.
Mas eu passei nove meses, quase nove meses.
Faltando quatro dias pra nove meses pra eu ir pra casa.
O que eu senti? Porque tô falando lá, tô com leite. A pessoa é presa, né?
Poxa, o pior pra mim foi eu estar lá sem ninguém, né?
Ninguém levar nada pra mim.
Sem ver minha filha também, porque...
A pessoa ficar lá num lugar daquilo sem ver famílios,
é mentira.
Como se decide quem é que vai ser preso?
Entre 1992 e 1994,
de todos os assassinatos que a polícia tomou conhecimento,
apenas 8% foram transformados em inquérito
para que a justiça pudesse julgá-los.
Os demais 92% nem foram investigados.
O sistema penal é, entre outras coisas, uma grande injustiça.
Então, a força ideológica da punição é essa seletividade.
Está nessa seletividade, está em escolher um ou outro pra cumprir esse papel.
Quem cumpre esse papel são as pessoas já...
já oprimidas, já situadas,
numa posição de subalternos dentro da sociedade.
Não é sobre a ameaça de punição, não é sobre o castigo
de um ou outro bode espiatório, que esses condutas negativas são evitadas.
Para que serve a prisão?
Dados demonstram que quase metade desses presos voltam ao crime.
A população carcerária no Brasil dobrou entre 1995 e 2003.
Um sistema desse tipo, um sistema coercitivo,
como você tem que impor para manter a segurança disciplina,
torna-se absolutamente inviável você obter a meta recuperação.
Você não ensina alguém a viver em liberdade, tirando a liberdade da pessoa.
Lá você perde toda a sua sensibilidade de cidadão.
E você passa a ser como se fosse um animal só que racional.
Pelo lado humano, você perde um pouco da sua sensibilidade.
Você perde muito do teu, como vamos dizer,
muito da sua carisma.
Você passa a conviver com a violência, com agressão,
não liga muito para aquilo que acontece aqui fora,
só aquilo que está ao seu redor lá.
Então você perde muito da sua sensibilidade.
Muito do ser humano. O ser humano perde muito de si.
A pena de prisão é absolutamente ineficaz e pior do que isso.
As pessoas saem da prisão mais violentas e mais perigosas
do que eram antes de penetrar na prisão.
Vocês magam o preso dentro das normas todas que são necessárias
para a manutenção de segurança disciplina.
Você está suprimindo de presa a possibilidade de se recuperar.
O máximo que você pode conseguir é fazer com que o preso se adapte à vida da cadeia.
Quando me vi ali dentro, eu fiquei totalmente desorientado.
Mas tive que me acostumar com tudo isso.
Foi ruim, foi ruim. E continuo sendo até o último dia que eu saí de lá.
O sentimento mais agudo numa cadeia, o sentimento revolta.
Revolta com seu cotidiano, revolta porque é tratado como um animal violento e perigoso,
é tratado com crueldades, com desumanidade.
E o sentimento de revolta é por ver que o crime que ele cometeu não se compara
com o crime que a elite comete nesse país.
Qual é a finalidade da prisão? É uma jaula para reter as pessoas.
Não tem outra finalidade, eu não sei.
Momentos antes de eu estar vindo para essa entrevista,
eu encontrei um companheiro que estava comigo.
E ele simplesmente falou que estava indo fazer um assalto.
Eu poderia estar nessa pequena porcentagem, nessa grande porcentagem.
Mas esse privilégio eu dou muito primeiro a Deus e segundo ao meu esforço.
Destrói o indivíduo, destrói a família do indivíduo.
Isso é o que a prisão consegue fazer.
Eu fui preso em 1982, dia 21 de agosto de 1982. Ele era muito pequenininho.
Quando eu fui preso em 1982, 23 anos passados,
eu acho que eu devia ter orientado melhor.
Eu acho que eu tenho uma parcela de culpa.
Tenho medo, tenho um filho pequeno.
Eu tenho que orientar ele também, o caminho que deve seguir.
A mão depois também não vem acontecer a mão depois.
A gente também está no lugar disso, a gente nunca sabe.
A gente realmente precisa caminhar no sentido de reservar a pena de prisão
apenas para os criminosos, violentos e perigosos.
Esse preconceito de lado vai ajudar muita gente, assim como me ajudou.
Vai ajudar muita gente.
Este é Luciano Silva Pereira Filho.
Aos 38 anos, cumpri pena por homicídio qualificado.
Aos 33, matavam um policial que assaltou no sinal de trânsito.
Aos 26, fugiu do presídio.
Aos 24, era preso em flagrante por assalto à mão armada.
Aos 21, conseguia liberdade condicional após cumprimento de parte da pena.
Aos 18, era preso por tráfico. Aos 17, deixava a fé bem.
Aos 16, era preso pelo roubo de uma carteira.
Aos 15, fugia do criante.
Aos 13, era preso pelo furto de uma bermuda.
Será que sempre tem que ser assim?
O que poderia ter sido diferente na vida de Luciano?
Nós temos os dados de recidência desses adolescentes,
não só pelo departamento, pelo Estado, mas pelo judiciário também.
É muito alto.
Já deve dar a faixa de 60 ou 70%.
O Maurício tinha 14 anos de idade,
quando ele saiu com um coleguinha e cometeu um primeiro delito,
que foi o de roubar uma bolsa de uma senhora na rua.
Se ele tinha uma coisinha de nada, de vício aqui, lá dentro,
aumentou, mas ficou enorme.
Quando ele saiu, ele praticou o que ele aprendeu durante um ano,
que ele pudesse ter que pagar por aquele delito que ele cometeu,
mas que não fosse dentro de um lugar,
afastando ele completamente de mim, da família, da casa.
O sistema só contribuiu comigo para afastá-lo de mim.
Quer dizer, o filho é seu, mas você não pode fazer nada,
não pode fazer muita pergunta.
Não há um acolhimento, acho que há uma forma de violentar esse adolescente,
cada vez mais, porque ele sai de lá cada vez mais revoltado.
Ele fica ali mais ou menos até os 18 anos. Com 19 anos,
ele saiu de ali completamente destruído.
Então, olha, eu vou roubar mesmo, agora eu não vou conseguir mais nada mesmo,
não sei o que que é.
Tum, sistema penal.
É muito triste saber que, depois de 10 anos, 11 anos,
trabalhando ali, eu não consigo ver esses adolescentes
numa situação melhor.
Se eu venci, montei minha família, eu dei uma condição melhor,
infelizmente até hoje eu não encontrei uma situação dessas ainda.
Porque eles já entram lá discriminados, como marginais, como bandidos,
porque moram no morro, são negros, são pobres.
A classe pobre, de que eu já falo pobre mesmo,
elas ficam lá.
Por que que a média, a alta, você não vê?
Você não vê chegar, né?
Parar de carro com as pessoas finas e visitar aquele menino.
Falei para ir agora, a responsabilidade é muito maior,
que é você.
Ou seja, eu tenho 20 anos, ele já tem um filho,
tem uma menina, eu até hoje tenho esperança
de ainda resgatar o meu filho.
Para que serve a cabelo?
Será que o isolamento é a única solução para os que infringem a lei?
Muitos dos vínculos, sentimentos, afetos
que nos tornam sócios do ambiente humano fazem parte
da dimensão subjetiva.
Lúcia foi detida por furto.
Qual a diferença entre ela e outros condenados?
Eu trabalho agora na promotora das legais, na Temis.
Faço faxino lá, trabalho de limpeza, lá dentro está presa,
que na rua você pode mostrar que melhorou mais,
não tem como te mostrar, é que na rua tem mais condições.
Melhorar mais, trabalhar é melhorar mais que dar do meu filho.
O juízo tem um pouco de resistência,
de abandonar o apelo, a pena de prisão
e aplicar essas penas alternativas.
Há exemplos pelo Brasil, à fora, muito bem sucedidos
e em outros países, mais ainda.
É isso que a gente precisa, é por isso que a gente precisa lutar no Brasil.
O que você faria se souberse que quase mil detentos
de monicomes judiciários foram soltos nas ruas de Belo Horizonte?
O PIPJ é um programa do Tribunal de Justiça
que realiza o acompanhamento de portadores
de sofrimento ambiental, de loucos que cometeram algum tipo de crime.
A grande maioria deles são casos que são pacientes sujeitos
que estavam à margem da assistência das políticas públicas,
o ato criminoso, foi uma solução para esse sofrimento.
Tão pacientes que estavam escutando vozes de comando,
tendo alucinações, delirando.
Porque muitas das vezes a gente grita para o socorro
e eles davam hospitais para a gente.
O médico só queria te dar remédio, te poupa dormir.
A Justiça queria te condenar e pronto.
Então a gente faz, acompanha essa trajetória
e do paciente mediana e as relações dele na cidade com a Justiça.
É impossível pensar em saúde mental
ou em condições de privação de liberdade.
O privado é muito ruim, é igual um prisioneiro,
que puder encontrar apoio de vários profissionais
que puderam ajudar a conduzir, construir um caminho.
O modo de tratar, o modo de restabelecer a segurança
é criando condições de lação social.
Até hoje, nesses 6 anos, nós não temos nenhuma
coincidência de ato com violência.
Nós temos aí, acho que, umas 17 coincidências
de uso de droga, de furto.
Na rua bastante, já convivo com muitas pessoas já
e falo com muitas pessoas, tenho muitas amigas aqui já.
Dolo de violão, dirijo meu carro para baixo e para cima.
O Detran devolviu a minha carteira de motorista.
A gente aprendeu isso com eles, que eles têm condição
de responder pelo seu ato como qualquer cidadão,
desde que eles tenham acesso aos seus direitos
como qualquer cidadão.
Agora eu me sinto uma pessoa, um homem, um ser humano.
Será que é uma forma de trazer uma pessoa de volta
para a sociedade, não é trazer a sociedade de volta
até ela?
O Programa Liberdade Assistida recebe os adolescentes
encaminhados a partir de um processo legal,
o dos adolescentes que cometer algum tipo de ato
inflacional, como se a gente tivesse que apressar
o tempo do adolescente para dar uma resposta possível,
mas uma outra resposta em relação ao trabalho,
à escola, à família.
A gente convocou as pessoas da cidade, não precisa ter,
não tem critério de escolaridade, não tem critério de...
O meu primeiro contato foi um contato nervoso, tenso,
é uma situação muito nova para mim,
acredito que para ele também.
Eu acho que o orientador é basicamente,
ao meu ver, uma referência ética para esse adolescente.
A primeira coisa que ele aprendeu
é que existe alguém disponível para ele.
responder por um ato impressional,
que é a mesma coisa que um crime,
um caos de penal,
e liberdade,
é uma diferença que eu não saberia nem quantificar,
nem qualificar, porque é uma diferença enorme.
É radical a diferença.
É a diferença de que isso pode interromper
um ciclo da violência.
Caminhando pela calçada,
tinha um grupo de moradores de rua
que fizeram o mensal de me abordar naquela situação típica,
ou para pedir alguma coisa, até para um ataque, não sei.
Ele caminhava um pouco atrás,
ele passou a minha frente,
olhou para as pessoas como num código,
quase pedindo permissão para que eu passasse ser incomodada.
Eles não me olharam mais e eu passei tranquila.
Entramos no cartório, pegamos a certidão dele,
e quando voltamos,
eu sugeri que entrássemos numa papelaria
já numa outra região mais nobre, no centro,
e comprasse-nos uma pasta.
Ao entrar na papelaria, ele caminhava logo atrás de mim,
ele despertou a atenção das pessoas,
os funcionários olharam para ele
uma segurança que caminhou em nossa direção,
não sabendo que ele estava comigo.
Aí foi a minha vez de defendê-lo.
A violência é o retorno da segregação.
A gente pode apostar, sim,
que fazer uma oferta,
incluir, ou seja, fazer com que o sujeito possa pertencer
à maneira dele, à uma cidade
faz com que ele também
preste outro serviço a essa cidade,
você interaja com ele de outro jeito.
Ele me aceita na condição que eu sou.
Normalmente ele não aceitaria
porque eles veem as pessoas
da nossa postura como agressores dele
e nós o vemos como nossos agressores.
Entre eu e ele não existe isso.
A gente está quebrando essa regra social.
Se pegarmos como exemplo
os detentos condenados por furto do Brasil,
um crime considerado menor,
veremos que eles custam por mês
o mesmo que 5.600 casas populares.
Um preso também custa o mesmo que 17 estudantes
em um programa de alfabetização.
E este detento é também José Zenivaldo,
pai de Rafael e Valdigiane.
Será que o isolamento
é a única forma de responsabilizá-lo
pelos seus atos?
Somos sócios de uma sociedade
onde vários sentimentos,
pensamentos, desejos,
medos, lembranças transformam
nossa relação com outros seres humanos
diariamente.
É uma outra dimensão que influencia
diretamente a nossa vida
e a forma com que vemos o mundo.
Você pode não saber,
mas tem gente pensando sobre isso
e faz toda a diferença.
Entre as pessoas que fizeram este programa,
tem gente que já roubou,
mentiu, subou, roubou, roubou a lei,
mas que também acredita que somos todos
responsáveis pelos nossos atos
neste clube que é o ambiente humano
em que vivemos.
Aliás, ninguém quer sair do clube não.
De jeito nenhum!
