Aides, uma doença que, além de não ter cura, leva sempre a morte.
Hoje sabemos que essa visão fatalista das coisas não corresponde à verdade.
Tem-se observado que aproximadamente 5% das pessoas infectadas com vírus da Aides
há mais de 10 anos continuam a gozar de boa saúde, mesmo sem se tratar.
Já o tratamento preventivo das infecções oportunistas tem permitido retardar o desenvolvimento
da doença no número considerável de portadores do vírus.
Ainda não é a cura, mas com certeza é um grande avanço.
Isso é o que dizem muitos cientistas que estudam Aides.
Eles acreditam que, já na virada do século, poderão apresentar resultados importantes
no que se refere a vacinas e terapias.
Muitos acreditam que será possível tratar a Aides como uma doença crônica, feito
diabetes, feito pressão alta.
Por isso, a pessoa que se infectar hoje tem uma boa possibilidade de viver sem sintomas
até o momento em que teremos a disposição de tratamentos mais efetivos que os de agora.
Então, essa pessoa tem boa chance de sobreviver à doença.
Eu concluo, Aides, hoje, já não é mais igual à morte certa.
Vocês estão falando do que, hein?
Quem terá a disposição dos novos tratamentos?
Diz, Sandro, diz.
Vocês estão vendo isso aqui?
Não vendo?
Esse é o AZD, que está à minha disposição.
Está todo mundo vendo direito?
Eles me deram no hospital ontem.
Legal ficar aí falando de cura.
Chance de sobreviver à Aides.
Pode deixar que a gente vai morrendo por vocês!
Essas pessoas estão morrendo de Aides por falta de tudo.
Isso é importante.
O resto é nada.
Esse AZD aqui, olha.
Esse AZD que me deram ontem.
É isso que andam distribuindo para aí.
Essa merda está vencida!
Olha!
Vencida!
Você precisava dar esse show todo, é?
O que é?
O que é?
Eu estraguei o Circo da Esperança?
Não tem Circo, não, Arthur.
Tem gente séria que não está aqui para ser agredida.
Aí eu que agredo.
Aí eu que agredo.
Mas tem gente séria que não é isso que eu estou falando.
Não me enche o saco, porra!
Por que?
Por quê?
Eu não sou otimismo ambulante, não, cara.
Eu estou infectado.
Esqueceu?
Eu sei que a barra é pesada, mas encarnar o papel de moribundo o tempo todo?
Dá um tempo, meu irmão.
Para você, deve ser fácil falar, não é?
Portadora simtomática, não é assim que vocês dizem.
Sando, você não sabe nada de nada e fica cagando regra.
Eu quero ver manter essa aposia, quando a doença pegar para valer.
Remédio velho, neguinho se acabando de cholado.
Todo momento você vê na cara a morte que te espera.
Quero ver segurar essa bicho.
Eu não sei o que dá pra segurar, velho.
Eu só sei que eu não vou morrer antes da hora.
Entregar os pontos assim, como você.
Chega desse papo, Sandra. Acabou. Tá bom, fim. Chega, chega.
A gente se vê por aí.
Ou, de repente, a gente nem se vê mais, né?
Pra estar de adicão com pressão alta, você acha?
Vai com todo mundo trabalhando a sério nisso? Por que não?
Tá na hora de parar com isso, Sandro. Tá machucando demais as pessoas.
Tá machucando Arthur, né?
Não é só o Arthur. Tem um monte de gente igual a ele.
Tem milhares diferentes. Arthur tem que entender que eu tô com a razão.
Ele não tem que entender nada. Quem tem que entender é você.
Essa tua razão tá entrando em choque, né?
Meu Deus do céu, será possível que você não consegue perceber isso, Sandro?
Uma coisa não bate com a outra. Essa tua conversa de cura não dá mais.
Não dá, Nanda. E esse bando de gente lá fora paralisado de medo?
Eles não merecem ouvir essa minha razão?
Eles não merecem ouvir essa minha razão?
Ela acredita que você vai começar tudo de novo.
Eu vou é continuar. Sabe por quê?
Porque é uma sacanagem não dizer que a chance é de verdade.
Nanda, eu sei uma pulsão de coisas que podem ajudar a tirar essa ideia fixa de morte da cabeça das pessoas,
então eu tenho que dizer...
Vai dizer o quê?
Animai-vos, eu tenho a cura.
Não.
Porra, eu não tô falando de milagro, eu tô falando de outra coisa.
Olha aqui, cara. Tira a morte aí da sua cabeça.
Isso. Agora, ponha a cura.
Vai lá, insiste. É feito um quebra-cabeças, mas encaixa, encaixa assim.
Eu tenho que dizer isso, Nanda. Se não fica assim, a Aides mata.
Se pegar, pegou. Pronto. Ninguém faz mais nada.
Não usa camisinha, não faz exame e nada.
A ideia da morte congela tudo, Nanda.
Congela um instinto de sobrevivência. Congela até a sua cabeça.
Eu tenho carradas de razões pra apostar nessa cura.
Então eu aposto tudo, Nanda.
Se você quer desistir, desiste, Tânice, mas eu não vou.
Quem é que tá falando de desistir?
Eu só não quero ficar me iludindo.
Você perdeu a capacidade de se impressionar com a verdade, Nanda.
Mas eu não.
Eu sei como vai ser o dia da cura.
O dia da cura chegou. O clima, é claro, é de muita emoção.
Todo mundo querendo ouvir o professor Sandro Cardoso,
quer sem dúvida nenhuma maior personalidade do Brasil na luta contra Aides.
Professor, por favor, seus comentários sobre as últimas notícias que acabam de chegar de Nova Iorque.
Há muito que eu esperava por esse dia.
A importância desse fato é tão fantástica. É uma notícia extraordinária.
Professor, eu estou me sentindo meio atropelado pelos acontecimentos.
Preciso compreender melhor isso tudo. Outra hora a gente se fala mais.
Obrigada.
Professor, por favor.
É com você, Bet.
Fantástico, gente. Essa emoção não é pra menos mesmo, não.
Como já noticiamos, a partir de hoje, Aides pode ser tratada com uma doença crônica.
Num comunicado divulgado esta manhã, o secretário-geral da ONU, Boutrus Galli,
anunciou ao mundo a descoberta do combinado de medicamentos TW2,
desenvolvido pelo consórcio internacional de cientistas coordenado pela própria ONU.
E agora, o nosso correspondente, direto de Nova Iorque, tem outras novidades.
É com você, Bruno.
É um momento de grande emoção, Bet.
Esse cenário, que sempre vim mediando guerras e conflitos, fez guardando interesse de nações poderosas.
Hoje, é palco dessa glim de manifestação de solidariedade.
Esmajolí de ideia...
Neste momento, em assembleia, a geral extraordinária.
O secretário-geral das Nações Unidas está agradecendo a equipe de cientistas que desenvolveu o TW2.
O secretário-geral acaba de declarar o TW2, Fatrimônio da Humanidade.
Anemia.
Esta decisão histórica permite que o TW2 seja produzindo e distribuído por todos os laboratórios governamentais do mundo,
garantindo a todos o acesso a este acordo internacional.
Como era de esperar essa notícia?
Acabou, Nanda. Aquele medo todo.
Cada grife, cada febre, cada mancha na pele. Acabou, Nanda.
Você não vai ser mais uma viúva da Aides.
Se for o caso, você vai ser uma viúva com as outras.
Uma viúva de uma causa mais comum.
Ciberra o coração, assalto.
Então, que nem de cabezinha, a gente estava conseguindo direito, Nanda.
Mas agora a gente vai voltar a transar gostoso como era antes, você me ajuda, né?
Tem que ajudar, Carlos.
Agora você tem que me ajudar a aprender tudo outra vez.
Acho que eu não sei mais de ver essa morte rondando ali.
Feito um tigre pronto para atacar. Isso.
Esse tempo todo foi como se eu estivesse cercado numa clareira.
Mas agora o tigre foi embora.
Cara, eu já estou tão bem programado para morrer que agora viver é que é um problemão.
Um problemão.
Olha aqui. Você é uma analista do cacete.
Você vai ter que me tirar dessa, hein?
Você vai ter que me preparar para viver, tá?
Sim, como você faz com os adolescentes.
Nós vamos ter que começar tudo de novo, Carlos.
Será que eu ainda consigo enfrentar o delírio da felicidade de viver?
Dessa via.
Mesmo que esse remédio tem um ano e um segundo e você está ficando pronto.
E essa arma em falso muito forte.
De uma coisa que eu tenho certeza.
Eu vou ficar bom.
Bom, não. Ainda melhor.
E aí e aí
E aí
E aí
E aí
Lembra-os de mim?
Eu te entrevistei no semana passada.
Você me disse que esse dia estava mais perto do que se pensava.
Acho que impudimos na questão tão perto.
Hoje nem pensar.
Olha essa festa e ela fala por mim.
Eu não preciso te dizer nada.
Mas eu preciso.
Eu vou fazer o teste.
É ridículo, mas eu morri de medo.
Só de pensar...
Não sei lá, só de pensar que podia dar positivo.
Bom, mas agora que já tem a cura...
Desculpa, desculpa.
Dizem que dá sorte.
Não, mas não é sorte não, cara.
Desde o início eu me cuidei a doidado.
É por isso que eu estou aqui.
Em terraço.
Eu queria contar antes, mas eu tive medo.
Eu vi como era com os outros.
Eu vi como eu era com os outros.
Antes de eu saber que eu também...
Eu vi como era com os outros.
Eu vi como eu era com os outros.
Eu era com os outros.
Antes de eu saber que eu também...
Droga, é tão difícil assim de entender.
Então é sério que você e eu...
É verdade.
Mesmo que não precisasse mais a camisinha,
eu ia continuar exigindo.
No começo eu sentia que eu tinha brincado, sabe?
É depois que a gente fala o negócio.
O que é isso?
O que é isso?
O que é isso?
O que é isso?
O que é isso?
O que é isso?
O que é isso?
O que é isso?
O que é isso?
Eu ouvi a notícia e pensava...
Hora de retomar os planos, os projetos adiados.
Hora de recomeçar de onde eu parei.
Foi aí que eu pensei, mas onde eu parei?
Nem sei mais.
É como se eu tivesse passado todos esses anos
esmurrando uma porta, esperando que ela se abrisse.
Eu parei no dia que eu saí do médico com o exame na mão.
E vi a morte assim em uma esquina.
De lá pra cá eu não consegui tirar ela mais da minha cabeça.
É como se eu tivesse gastando a vida pra morrer.
Quer saber alguma coisa?
Eu acho que a gente esqueceu o que tava vivo.
E o senhor?
Eu queria um combinado TW2, por favor.
Vem quatro caixas de camisinha também.
Vem qual?
Pode ser da lubrificada e colorida.
Estou falando do TW2, rapaz.
De 50 ou 100 dólares.
O de 100 é 4.
1, 2, 3, 4.
4 é de colorida.
TW2.
Já pensou, Nanda?
Eu na farmácia comprego TW2?
O que você acha?
TW2?
Sei lá.
Eu imaginava um nome mais pomposo pra cura da AIDS.
Não é pra cura, não. É só por remédio.
A cura, Nanda. A cura tá aqui na gente.
Com remédio eles vão descobrir, mas a cura já existe.
A gente só tá prendendo.
Diz um nome pra mim, Nanda.
Diz um nome pomposo pra cura.
Diz.
Vida.
É vida, né?
Um nome da cura. É vida.
Um nome da cura.
Um nome da cura. É vida.
e
e
e
e
e
e
e
e
e
e
e
e
e
e
e
e
e
e
e
e
e
e
e
e
e
e
e
e
