Como fotógrafo, já há 20 anos, de guerra e isso, de conflitos, eu sempre soube que a possibilidade de ser ferido
era uma coisa verdadeira. E quando eu fui ferido, pronto, era uma questão de uma número ter chegado,
chegou uma número e apanhou-me prontos. Eu ouvi o ting, de ter pisado aquela cena, ouvi o ting e logo a seguir aqui uma grande explosão,
deitou logo para o chão, poeira por todo lado, mas eu não senti dores cair e lembrei-me a dizer para as saudades,
eu preciso de uma assistência, preciso de assistência, e os saudades estavam um bocado tontes da explosão, mas não ficaram feridos,
eu fui um único ferido. E eles viraram, viram o que tinha caído, chamaram aos outros, é o fotógrafo,
a levar-me a mim e levar-me para uma área bem mais segura, mas assim, uns metros do lugar da explosão.
E é verdade que pediste a tua máquina fotográfica, como se disse na altura?
Não, a minha máquina fotográfica, uma delas foi destruída, a outra estava à volta do meu pescoço,
eles estaram no chão e eu tentei tirar umas imagens, consegui umas ou três, mas não foi grande coisa,
o pulso doia muito, achei a máquina cair. Eu esperei, porque eles começassem a fazer esse assistência a mim,
claro, os médicos chegaram logo, começaram a dar injeções, e é por ternicais a cortarem a corrente de sangue,
e a correspondente estava comigo, chegou perto de mim, eu pedi o telefone, o telefone satélite,
pofinava a minha mulher, eu queria que ela avisse a notícia de mim, dando uma voz desconhecida,
e pronto, eu expliquei a ela que estava ferida e a pedidinha de minhas pernas, mas que estava vivo, e que pensava que ia sobreviver.
Tive sorte, tive muita sorte de estar vivo, quase que me perderam três vezes, quase que morri três vezes,
a primeira vez foi em Bagram, na Afganistão, e depois duas vezes aqui no Walter Eden, onde eu estou a recuperar.
Nunca pensei do passado, só comecei a pensar no futuro de recuperar, de começar a andar,
e essa força mental, essa mina não me matou e não vou deixar o resto de recuperação na tarde.
Os prostéticos, a primeira vez, foi dia 7 de fevereiro, e foi o primeiro dia que eles me posaram as pernas,
depois terem feito as molduras, e logo nesse dia eu pus-me em pé para ver o balanço, o meu turpista perguntou-me se eu queria tentar andar,
eu disse sim, quero, e logo conseguiu-me umas primeiras passas com uma facilidade que nem eu esperava.
Bem, muita dor, isso é uma coisa natural, e já tenho que ir, mas isso é tudo que faz parte desta viagem,
mas pronto, estou a conseguir, e tem sido fácil, tem sido ok.
Se ter amigos e entrar em dia a dia é uma coisa porra, está sempre fotógrafos, ou jornalistas,
está sempre pessoal a passar, traz em prendas, traz em livros, traz em doces, é uma coisa incrível.
E claro, eu tenho aqui sempre família, eu tenho minha mulher, os meus filhos, os meus pais, os meus cunhados, por isso há sempre uma rotação de família.
Ajudo a enforçar uma pessoa, a fazer uma pessoa mais forte de dia a dia, porque há sempre uma sustência, prende amizades, e é importante, é muito importante.
Sózinho, numa situação destes, nem imagino, já a recuperação foi tão difícil que após distar-se sozinho, nem imagino.
Acho que sim, ao normal, nunca vai ser normal. Eu acho que desde o dia que tinha o incidente, quando eu pusei na mina, tudo mudou, e pronto, mas está tão normal como pode estar.
Eu lá, amiga, fui grande bowler, como se diz, por isso, mas foi agir, foi poder, os putos gostaram muito, e para mim foi agir, foi agir, sim, que as crianças iam andar por lá.
Eu percebi que até dançaste um pouco, quase.
Sempre dei uns dancinhos nas pernas, foi agir, foi purrero, foi uma tarde bem passada.
Se for possível, eu vou reforçar. Essa decisão só pode ser feita, claro, no fim de tudo, não é quando chegar ao fim do meu programa de reabilitação.
Só nesse ponto, é que eu sei mesmo, é que quando posso correr, se posso correr muito, posso correr muito.
É o ponto de subir e descer fora de carros, de caminates. Bem, isso tudo, isso tudo vai sempre ser mais lento do que foi.
Eu já acabo. E pronto, eu acabei nesta.
Se foi bom ou mal, não sei, mas pronto, vamos ver.
Até para, pelo menos, estou vivo, não é? Estou vivo, estou a andar, está ali minha família, está tudo na bola.
Ele é tecido muito, muito pior.
