São duas tecnologias de poder, a supremacia masculina ditada pelo contrato sexual e a
supremacia racial branca ditada pelo contrato racial.
Então nós estamos, se uma sororidade pode ocorrer entre nós outras, ela depende de quanto
formos capazes de desafiar esses dois contratos simultaneamente.
Por que que eu insisto nisso com tanta ênfase?
Porque tem sido uma tática do poder branco-patriacal descaracterizar através do mito latino americano
da democracia racial minimizar essa contradição.
E eu quero colocá-la como uma variável estrutural.
Nós não somos um problema entre comídias, não?
Nós somos uma determinação estrutural dos desafios de promoção da democracia, da igualdade
e realização dos direitos humanos na nossa região.
E isso tem sido deliberadamente ou não ocultado ou minimizado como um problema entre comídias.
Ou seja, se colocamos essa variável no centro dos desafios e das contradições que estão
postas para a realização da plenitude dos direitos humanos, nós rompermos com a histórica
artimanha de minimizar essa problemática por meio da reteração da mitologia, da mitologia
da democracia racial.
Parece um debate antigo, mas quando eu falo isso eu me refiro, por exemplo, ao servador
da república do meu país que recentemente fez uma declaração na qual ele tentava minimizar
a violência do processo colonial e da escravidão no Brasil dizendo que as relações entre
senhores e escravas haviam sido relações muito mais consensuais do que se poderia
imaginar.
Então, isto foi dito para um senador brasileiro a menos que um ano atrás.
E não acredito que seja um tipo de comportamento característico das evites dos nossos países
em relação a esse tema.
Então, assim posto, eu creio que eu posso dizer que as mulheres negras adentram o feminismo
com essa dupla, com esse duplo desafio e com essa dupla responsabilidade de questionar
simultaneamente tanto esse acordo injusto dos homens, não é, da supremacia masculina
quanto esse acordo injusto, não é, da hegemonia branca sobre as nossas evites.
