O adestrador de cães, Edson Neres, foi morto por passear de mãos dadas com outro homem.
Renata Peron perdeu um rim por ser drag queen.
Crimes que aconteceram em São Paulo, uma das capitais onde a liberdade de expressão é reconhecida,
onde a parada gay reúne milhões de pessoas.
Onde estão os skinheads acusados de agredir homossexuais?
Como esses grupos continuam agindo?
São Paulo, terra de nordestinos, terra de sulistas, terra de toda a gente.
São Paulo é uma imensa terra onde gostos, desejos, orientações diferentes se encontram
no mesmo espaço.
São Paulo é a casa da diversidade.
Renata Peron nasceu há 15 anos em São Paulo.
Quando eu criei ela, eu sempre pensei em grandes divas roliudianas do cinema, como a
grande cantora Barbara Streisen, depois a Celine Dion, Rita Hayard que é uma atriz de
cinema que é maravilhosa.
Só que com o passar do tempo eu fui modificando essa drag e eu fui deixando ela muito brasileira.
E aí veio a triste surpresa, a mesma cidade que acolhe a diversidade é a que discrimina.
A cidade onde mora mostrou a cara do ódio homofóbico.
Uma praça, um espaço público de lazer democrático, assim deveria ser, mas a praça da república,
ao contrário disso, é testemunha da intolerância, do preconceito, daqueles que não aceitam
a diferença.
No final do ano de 2007, Renata Peron estava com um amigo na praça da república, quando
foi atacada por um grupo de nove rapazes, um deles deu um chute na vítima, o golpe
atingiu um dos rins.
Renata Peron e o amigo Anelo Medina passeavam na praça da república no centro de São
Paulo, quando foram interceptados por nove rapazes.
Nenhum deles agrediu Anelo, todos cercaram Renata, que foi chutada na barriga com a
ponta de uma bota revestida de ferro.
Apesar de ter pedido ajuda, ninguém parou para prestar socorro.
Já no hospital, Renata descobriu que o seu rim havia estourado e que teria que ser operada
com urgência.
Foi uma dor muito grande, então, estourou o rim na hora.
Na mesma praça, outro caso de agressão a gay, o adestrador de cães, Edison Neres
da Silva, foi atacado e não teve chance de escapar.
Ele tinha muitos sonhos, o Edison tinha muitos sonhos que foram interrompidos no dia 6 de
fevereiro, de 2000.
Seis de fevereiro de 2000, Edison Neres passeava com um companheiro, Dario Pereira Neto, na
praça da república no centro de São Paulo.
Esse seria o segundo e o último encontro dos rapaces que se conheceram há dez dias.
Edison e Dario andavam de mãos dadas.
A atitude do casal despertou a intolerância de um grupo radical conhecido como carecas
do ABC.
Dario conseguiu escapar e foi buscar ajuda na estação de metrô.
Edison não teve a mesma sorte.
Em poucos segundos, foi espancado até a morte.
Três horas depois do crime, a polícia deteve 18 integrantes do grupo que bebiam no bar
Recanto dos Amigos, no bairro do Bichiga, há cerca de dois quilômetros do local do
assassinato, entre eles 16 rapaces e duas mulheres.
A gente ficou revoltado, porque esse não seria um motivo para tirar a vida de alguém.
O promotor público Marcelo Milani, responsável pela acusação, tratou o homicídio como um
crime de ódio, motivado pela homossexualidade da vítima, algo inédito na justiça brasileira.
Nesse caso específico, foi uma oportunidade que eu vi de tentar adequar uma ausência
de lei.
A ausência de lei, porque nós não tínhamos a época, como ainda não temos, nada que
se refira à discriminação no que se refere à orientação sexual e também ao chamado
racismo.
16 suspeitos foram condenados, 7 apenas por formação de quadrilha e 9 por homicídio
e tentativa de homicídio.
2 dos agressores receberam pena de 21 anos de reclusão, Henrique Velasco, que pegou
mais de 19 anos, morreu doente na cadeia.
A punição foi possível, segundo o promotor, porque a polícia agiu rápido na prisão
dos criminosos e um deles cooperou com os investigadores em troca de redução na pena.
E o mais importante, a opinião pública.
Assim encontraram o garçom Marcelo Barros de 35 anos, no dia da parada gay em São Paulo
no ano passado, logo após o evento.
Próxima praça da república, famoso ponte da boemia gay paulistana.
14 de junho de 2009, dia da parada gay em São Paulo.
Por volta das 10 da noite, o garçom Marcelo Campos Barros seguiu para a rua Marques de
Tor, no centro da cidade, onde a parada gay se dispersava para se encontrar com alguns
amigos.
Mas, a caminho do ponto de ônibus foi interceptado por um grupo de 5 rapazes que o espancaram
até que ficasse inconsciente.
Marcelo foi levado para UTI do Hospital Santa Casa de Misericórdia, o diagnóstico
traumatismo crâniano.
A falta que faz é mais um ser humano, mais um componente que a gente deixou de ter.
