Quilo de Janeiro, século XXI, há 20 anos a queda do muro de Berlim enterrava as últimas
utopias.
O sonho já havia acabado com os bitos e o cara mais bacana do momento era o Yeltsin.
Hoje, sem o Partido Comunista e sem o Yeltsin, o homem caminha sem rumo enquanto a luta de
classes continua comendo solta.
Nesse mundo cão, a função social de um fotógrafo como eu é retratar a condição
paradoxal do homem moderno.
Subir na vida e, sempre que possível, pegaram uns modelos bem gostosos.
Meu nome?
Quem precisa de um nome?
Mas afinal, quais são as grandes questões da humanidade?
Integrar o desnatado?
De um Deus?
Ele é homem ou mulher?
Que diabos é hermenêutica?
Cigarro faz mal?
Por que os homens tem mamilos?
Tostines vem demais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vem demais?
Estas são, no entanto, questões insignificantes.
Existem somente duas questões essenciais que são realmente sérias.
A primeira é, o que é liberdade?
Ora, a vã filosofia já nos forneceu a tempos da resposta.
Ser livre significa que todos nós podemos ser Bob Dylan e vice-versa.
Esclarecida esta pendência coloca-se a segunda grande questão.
Qual o sentido da vida?
Resolvi então recorrer a alguma fonte confiável de informação.
Obviamente a resposta não estaria em português.
E como eu não sei alemão, apelei para o bom e velho francês.
Minha fonte confiável me forneceu como resposta a 513 sites de fotografia e sugeria um aumento
de pênis.
Eu quero uma resposta bastante cretina.
Estava exausto.
Eu precisava de um desafio, precisava relaxar com algo realmente estimulante.
Bateu Mario Bros sempre respondeu a estes anseios mais viscerais.
Na boa, o jogo é simples.
Esse é Mario, um encanador comunista que deve subir na vida assaltando barrisas revestados
por um macaco peludo.
Tudo para resgatar esta princesa aqui.
Eu me considero um ótimo jogador.
Ah, tomei outro cacete, mais uma vez se for.
Calma, calma, você é o cara, você é o cara, você é o cara, nós somos os caras.
Sou a vermelha de merda, os pegadinhos nunca me enganaram, eu sou comunista.
Ahá, finalmente consegui.
Opa, opa, que é isso, o macaco é uma minha mulher.
Não faz sentido, eu tinha que começar tudo de novo.
Olha, tá foda, eu desisto.
Chega de Mario, chega de macaco peludo.
Vou dormir e pensar nas coisas boas da vida.
Amanhã, tudo começa de novo.
Logo cedo, o Vargas da Agência me ligou pra oferecer um trabalho com uma gringa que
tava na área.
Pra ontem.
Trabalho rápido.
Grana fácil e pernas longas.
É comigo mesmo.
Algo me dizia que hoje seria um dia bom.
Parei para acompanhar as últimas notícias porque o homem moderno está sempre bem informado
e eu sou o próprio Batmanigan.
O homem moderno está sempre bem informado e eu sou o próprio Batmanigan.
Tô aqui a campainha.
Ela abriu a porta.
Não disse nada.
Isso significava apenas uma coisa.
Sexo casual.
Preparei rapidamente a minha câmera e saquei um cigarro.
Essa é minha arma.
A câmera, é claro.
Ela parecia desconfiada.
Nessas horas é sempre importante demonstrar que você tem pleno controle sobre a situação.
Ela era linda e portava um revolver.
Mulher difícil, como eu gosto.
Resolvi fazer o jogo dela.
Pedi que ela se soltasse e disse que seria rápido.
Perguntei seu nome.
Ela me respondeu num português oado que se chamava Ana, não sei o que lá.
Ela me apontou a arma e perguntou como eu iria tirar fotos com a máquina digital barata e de óculos escuros.
Respondi que já havia feito assim no Vietnã e que o segredo está na alma, não nos olhos.
Nunca falei tanta bobagem na minha vida.
Ela me parecia triste.
Tentei levantar os ânimos com uma piada sobre Aristóteles, mas ela não entendeu.
Aleguei que os franceses não têm o menor senso de humor, mas então descobri que ela era russa.
Perguntei se ela acreditava em liberdade.
Ela respondeu que não e que por isso eu voltava sempre nulo nas eleições.
Pedi que ela colocasse algum som.
Ela sugeriu Bella e Sebastia. Aleguei que Bella e Sebastia eram a música de Mina.
Pedi Guns N' Roses.
Ela colocou uma música qualquer lá e o ensaio começou a esquentar.
Era agora. Eu era Napoleão e ela a grande mãe russa esperando para ser invadida.
A sorte estava lançada.
Perguntei onde era a cozinha. Eu precisava de álcool para incendiar a Moscou.
Ela não acreditava.
Ah, os russos e essa maldita obsessão pelo suicídio.
De repente o jogo voltou a minha cabeça. Agora tudo se encaixava.
Mário, a liberdade, a princesa, a vida.
O homem estava condenado a repetir incansavelmente sua jornada como Mário até finalmente morrer.
Fumar o mesmo cigarro até acabar o massa.
Afinal, não é esse o caminho de todos nós.
Não é esse, enfim, o sentido da vida.
É preciso imaginar Mário feliz.
Livre-me feliz.
Mário feliz.
Livre-me feliz.
Livre-me feliz.
Livre-me feliz.
Livre-me feliz.
