E FALINHA
Atualmente o Gonçal é um poeta, não é? Mas e lá no Nordeste também, com certeza já era um poeta.
Potencialmente era um poeta, só que era um menino da roça.
Trabalhava na lavoura, teve o Paralés Infantil, tinha muita dificuldade de locomoção ainda mais no tempo,
objeto, aliás, de muitas promessas da minha mãe, que rendeu um soneto no futuro.
E vim pra cá meio século, e em razão exatamente da Paralés Infantil,
foi muito difícil eu conseguir emprego primeiro, cheguei aqui com menos de 14 anos.
Era muito difícil arranjar emprego, por exemplo, na construção civil.
E quando arranjar um serviço mais prestado, logo o encarregado via.
O meu problema é físico, e se apressava, aí me manda embora,
pedia para o encarregado, manda logo esse rapaz embora, que senão vai ter problemas trabalhistas,
e aí eu vendo que não tinha outra condição de arranjar de ficar num emprego assim, busquei a casa de família.
O que me inspirou, é, é, é, que fundar a academia,
que isso nós tratamos, né, que eu fui a feira de São Cristóvão,
e quando eu cheguei lá, vi os museus em condições precárias, trabalhando na feira, debaixo de um sol,
em clemente e com caixas de sol criminosas, sufocando a viola deles,
e que daquele dia quando eu voltei para casa, já voltei pensando em fundar uma instituição,
fundar uma instituição que desse apoio, que criasse um clima no futuro para eles.
E isso a gente veio alcançando aos poucos, é porque aí tem muita coisa que não depende do esforço só da academia,
depende da diretoria, conversar com o dirigente, conversar com o prefeito, com o secretário de Cultura,
uma coisa que não depende somente da decisão da gente.
Agora, no que diz respeito?
Ao que depende das decisões da academia, essas coisas estão sendo, graças a Deus, alcançadas.
A literatura de Cordel vem da nossa veia, e ela foi fundada no Rio de Janeiro exatamente porque o Rio de Janeiro tem uma coluna nordestina muito grande.
Os fundadores da época moravam e ainda moram alguns que ainda estão vivos no Rio de Janeiro,
e como ela foi inspirada por um nordestino que estava radicado no Rio de Janeiro há muito tempo, a fundação se deu no Rio de Janeiro.
Agora, é claro que a literatura de Cordel, com essa roupagem que vocês estão vendo,
é uma roupagem típica do nordeste.
Hoje nós não temos nenhum vestígio da herança peninsular do tempo em que se fazia a literatura de Cordel,
não era obrigatório o formato, esse formato que nós temos aqui, nem coisa alguma, era tudo diferente.
É por isso que chamava em Portugal de folhas soltas ou volantes, porque na verdade eram manuscritos,
e folhas soltas ainda não havia encadenação, a feição desse folha.
Se a academia tivesse sido fundada por um cordelista, teria fechado.
Se tivesse sido fundada por um repentista, teria fechado.
A academia teria que ser fundada por um intelectual, que tivesse a necessária habilidade de reunir os dois mundos,
o mundo intelectual e o mundo popular.
Harmonizando essas partes contrárias, eu consegui levar a academia brasileira de literatura de Cordel
para a Federação das Academias de Letras do Brasil, em pé de igualdade com todas as outras academias,
e não adiantou de estímulo de alguns intelectuais.
A literatura de Cordel teve um passado nebuloso, duvidoso e de muitos problemas,
e precisava realmente da sustentação institucional de uma academia como a nossa,
mas agora não, a literatura de Cordel alcançou um nível elevadíssimo.
Nós temos folhetos de alto nível produzidos por poetas de cultura, de bastante cultura,
são baixareis e tudo mais. Agora é logicamente que não é esse,
não significa dizer que nós aqui subestimamos o poeta que não tenha escolaridade.
Não, o poeta é um poeta.
A academia funciona dentro dos padrões das academias oficiais.
Quarenta cadeiras, quarenta acadêmicos, quarenta patronos.
E ela funciona, o funcionamento principal delas, uma plenária por mês,
no nosso auditorium da cidade, lá no edifício do Instituto Histórico e Geográfico,
e tardes festivas aqui na sede da academia.
Bem, o público é realmente aquele que ama a cantoria, o duelo entre repentistas,
aqueles que vão a ferida de subestávio.
São os frequentadores típicos das tardes festivas da BLC.
Nós temos cerca de duzentos mil folhetos de Cordel,
conforme podem constatar aqui e isso aqui.
Cada pacote desse tem uma média de quinhentos folhetos.
É só você multiplicar um desses para ver que você tem aqui,
no mínimo duzentos mil folhetos de Cordel.
É o maior acervo do acidente, dito mesmo por pesquisadores que vêm aqui
e que dizem, bom, meu abrigão salo, não há dom mais em qualquer parte do mundo,
um acervo igual da BLC.
Não sou eu que digo, eles que dizem quando eu chego aqui?
Os cordelistas, sentindo que tem o apoio de uma instituição
que tem a força institucional da academia, passaram a ter vontade de produzir,
porque antigamente eles pensavam em produzir, mas ao mesmo tempo imaginavam,
olha, eu vou crie, fazer um original, vou guardar na gaveta.
Quer dizer, dificilmente terei a possibilidade de publicar esse folheto.
Então ele não tinha o incentivo que tem agora.
Por outro lado, a partir do nascimento da academia surgiram muitos cordelistas.
O Brasil ficou muito enriquecido com valores emergentes na literatura de Cordel.
E isso eu acho que é o reflexo, exatamente, da existência da fundação
da academia brasileira de literatura de Cordel.
Aqui no Rio nós estamos muito felizes do que diz respeito ao aparecimento de novos valores.
Agora, quanto a questão de a academia ter aparecido e ter se situado
num meio acadêmico realmente com o propósito de se tornar uma instituição respeitada,
isso inicialmente teve, como a literatura de Cordel sempre teve,
e possivelmente terá que ser olhada sempre com uma certa reserva.
Porque primeiro, os grandes valores na literatura de Cordel causam certo mal-estar na elite.
Na elite que vê um poeta de Cordel com a projeção de um patativa do açaré
e agora, mais recentemente, de um clave sonviana, olha com uma certa reserva.
Mas não mais com aquele ar de subestimar a literatura de Cordel ou seus produtores.
Porque eles estão vendo que a literatura de Cordel saiu aos poucos dos pontos
tradicionais de resistência para os corredores acadêmicos, para os salos universitários.
E se eles estão acompanhando, é tanto que hoje um poeta é recebido numa universidade
com respeito, com dignidade, com elegância.
Essa elegância que não tinha antes.
Ao contrário, quando o pesquisador chegava perto de um poeta de Cordel
para fazer uma entrevista, era mangando antecipadamente do que o poeta ia dizer.
Só que esse tipo de visão acabou, mudou.
E o surgimento da academia tem sido realmente muito produtivo nesse sentido.
A academia tem mostrado e nas reuniões plenárias mesmo nós mostramos claramente
que a nova literatura de Cordel é uma realidade, que a literatura de Cordel tem que olhar
o progresso, tem que obedecer ao progresso para não ser esmagada por ele
e aqueles retrógrados, que não são tradicionalistas, mas que têm raiva
porque você estuda, não gosta que um poeta de Cordel estude,
eles devem se lembrar que nós saímos da rudimentar roda de arquimedes
para as naves espaciais.
Nunca se compre o objetivo antes da morte.
A morte ao ponto final da vida se estabelece, o final de qualquer coisa
e então enquanto estiver vivendo, tem sempre novos objetivos,
tem sempre novas metas a alcançar, tem sempre sonhos a realizar.
Legendas pela comunidade de Amara.org
