Mãe Maria que estou a vossos pés.
Aperte proteção para mim e para meus filhos.
Cuida de meus filhos, mãe.
Queria que aquela moça dançasse para mim.
Queria que aquela moça dançasse para mim.
Olha lá lá.
Ela dança bem.
Ela só não pode me ver aqui se não vai achar que eu estou seguindo.
Será que alguém gosta de mim?
Eu nem devia estar aqui.
É, mas o tempo tá bom.
Saudade do vento.
Tá aí uma coisa que me faz falta.
Saudade do vento.
É uma coisa boa, vento.
Eu nem lembrava mais vento na cara.
Não dá pra sentir no cabelo.
É o vento bom.
Eu lembro das cortinas de pano velho e balançando lá em casa.
A maninha passava correndo.
Teve aquela vez que eu furei meu pé no prédio, mas eu não chorava não.
Eu aguentava do calado.
Eu sempre me aguentei calado.
Será que a maninha lembra de mim?
Alguém tem que gostar da gente nesse mundo, né?
Se morrer, vai pra onde se ninguém gosta da gente?
Vai cair no vazio.
IMAGINO QUANTAS VELA ME AMANHACENDEU PRA MIM.
Três anos, quase.
E aquela torre ali?
Será que é nova?
Como o tempo passa rápida aqui fora?
Há pouco tempo, né?
Eu acho que é.
Eu acho que é.
Eu acho que é.
Eu acho que é.
Eu acho que é.
Eu acho que é.
Eu acho que é.
E lá por fora.
Apparece construção de notinha, sobe o prédio no instante.
O mundo segue correndo lá dentro ao contrário.
Você retua a unha a crescer, você vê o teu cabelo crescer,
você vê o dia e a noite passar.
Mas a impressão é que o dia é sempre o mesmo porque ele muda nada.
De vez em quando chega um colega novo ou um guarda, pede demissão
É a gente que para no tempo quando está por lá.
Então, agora, né?
Nesta quinta-feira, 900 de um presos em regime cega aberto
saíram em liberdade pro visório.
Os elementos só retornam à penitenciária babuda na segunda-feira.
Os feridos liberados são ameiros aos seus primários
que nem um brilho, pelo menos no sexto de sua vida.
A gente é que nem tartaruga na praia.
Nasce aquele montão.
Aí tem sempre umas que a ave negra pega,
outra morre na areia.
Escolhe o caminho errado.
Um tantico assim que chega no mar.
Aí, no mar...
No mar é pior.
Tem peixe que pega, cai na rede despeiscadora aí.
Tem a onda que traz de volta.
É difícil tartaruga levar a vida certa, né?
Mesma coisa aqui fora.
Quantos que eu conheço que não deram certo,
tudo um bando de tartaruguinha.
Nasceram lá e não sabiam pra onde ir.
A gente não sabe pra onde é que vai.
Quando eu era moleque, eu não sabia pra onde ir.
E pra falar a verdade, eu ainda nem sei.
Mas eu sei de uma coisa.
Eu quero ficar aqui fora.
Estranho.
Estranho.
Oh, oh!
Sabe quais são os sonhos?
Não.
Eu distraí com a droga do carro.
Acho que eu acabei perdendo o ônibus pra casa.
Agora mais uma hora de espera.
Não acredito.
Olha essas pessoas aí.
Perdi! Que merda!
Você também perdeu?
Sim.
Olha, se eu não me engano,
tem um rapaz que pega o mesmo ônibus na parada anterior.
Se ele não estiver lá,
eu sei que foi o nosso.
Vamos lá?
Vamos lá?
Você viu? Era um cinco.
É, eu acho que sim.
O que será que eles fazem ali?
Qual é o teu nome?
Norberto.
E o teu?
O meu nome é Ellen.
Oi.
Oi.
Você sabe qual foi o ônibus que passou aí agora?
Não.
Era o 620?
Não.
É, você vai pegar qual?
Nenhum.
Vem cá, você não tem o isqueiro, não?
É, é engraçado, eu não tenho isqueiro aqui.
Não é meu, não, mas...
Obrigada.
Olha ali.
Não era aquele cinco que estava ali?
O que eles estão querendo?
O que eles estão querendo?
Um bordo aqui.
O que eles estão fazendo aqui?
O que eles estão fazendo aqui?
Vai, vai por ali, vai por ali.
Tem que pegar a galera no chilo.
Você vai aí?
Eu estou indo.
Primeiro achei que eram moleques, que eram barulho.
Agora eu sei que são moleques que querem machucar.
O que eles estão fazendo aqui?
O que eles estão fazendo aqui?
O que eles estão fazendo aqui?
O que eles estão fazendo aqui?
Meu Deus, está bem?
Sim.
Viu uns atravessando a pista.
Nos cinco é que são.
Uns quatro foram naquela direção.
Como é que eles estão no chilo?
Lá os guiaus.
Não tem nada.
Aqui.
Vai, Samuza.
Obrigado por você ter guardado a minha mochila.
Eu liguei para a polícia.
É, eu disse que estavam querendo me assaltar.
Dei mais ou menos para eles o lugar onde a gente estava.
Deve estar chegando, já faz uns dez meninos.
O que você falou para eles?
Eu disse que estavam querendo assaltar a gente, que eu estava com um amigo.
Que eram os moleques de rua.
Que não são, né?
Eles devem estar chegando.
Eu acho que é melhor a gente ir embora.
Está na hora.
Não, vamos esperar a polícia.
Quando eles chegarem a gente desce.
É porque eu quero ir.
Vamos esperar.
Eu não quero imigrar.
Vai aí mesmo.
São eles.
Vamos esperar.
Faz esse xixi logo.
Queria estar tomando café.
O meu café.
Às horas eu estaria em casa tomando café.
Que noite, gente.
Que coisa absurda.
Ai, eu prometo.
Quando a gente sair dessa,
eu faço questão de fazer um café para você.
Vou.
O café ia ser bom.
O que é aquilo ali?
É, é a nova toa.
Você não já visto?
Eu vi hoje.
Eu não sabia o que era, não.
Nossa, já tem uns dois anos.
Você dá onde?
Vamos embora.
Às horas.
Ei.
Espera aí, eu vou ligar de novo, perguntando.
Oi.
Eu acabei de ligar para vocês.
Será que se o pai pudesse escolher?
Será que seria eu mesmo o filho dele?
Será?
Norberto.
Ela disse que a viatura está no ponto de ônibus.
Que algumas pessoas ligaram reclamando do barulho dos folos.
Eu vou pedir para a polícia levar a gente para casa, sabia?
Eles demoraram demais.
Você quer subir até lá, a parada?
Não, eu acho que eu vou lá para Rodorviar e de lá eu pego o ônibus.
Vai a pé?
Oh, foda!
Oh, foda!
Oh, foda!
Oh, foda!
Oh, foda!
Eu sei que ela me disse, mas eu não consigo lembrar o nome dela.
Oh, foda!
Oh, foda!
Oh, foda!
Oh, foda!
Oh, foda!
Oh, foda!
Olha a ver com a néglas.
Oh, foda!
Oh, foda!
Oh, foda!
Ah sim, no queiro ou não queira, Ficou lado a lado, com os vadilas que daram de sinal fechado
E sim, cheio de medo e quis voltar pra cama Mas não voltou, subiu até abraço, alguém lhe pinte o fogo
Ele negou o coitado, tava assustado Com as bolsas de vida fácil, tanta sujeira, tanto pecado
