Pena que as armas não atiram rosas, Assim, é o dourado seriam jardim, Pena que o aroma
não era de flores, Pois camarazal não cheira jasmine, Carandiru chora prisões em clementes,
Candelária clama risos inocentes, O vento percorre cidades e campos, E os pés imigrantes
procuram seu canto.
Aquilo que aconteceu que já vai fazer dez anos, dez anos não são dez dias, e até
hoje a gente não sabe sequer quem foi que matou Pedro e Naso.
Em vinte e quatro horas depois que a gente vê a ocupação, aí chega um monte de pistoleiro
aqui, numas caminhonetas, e ele tinha feito a segurança de sete horas até meia noite.
Aí a gente falou pra ele assim ó, ninguém vai dormir hoje, que a gente tava meio assustado
que tinha chegado o carro estranho aqui, aí a gente sentou no pé da bandeira, ele
fez comida pra gente, a gente comeu, e ele saiu do meio de nós, que a gente assim não
sentiu falta né, muita gente a gente não sentiu falta dele.
Aí quando ele foi no dia oito pro dia nove, mandou se ouvir esse massacro, então se morreu,
foi tombou em nosso José da Silva, que é meu filho, e tombou Pedro Augusto da Silva,
que era meu gelo.
Na hora que o pistoleiro chegou, ele estava dentro do barraco, todo mundo correndo, muita
gente já abaliado, e a única coisa que eu vi foi quando ele saiu dentro do barraco,
eu sei que ele estava abaliado porque ele já ia tombando, e gritando, e o cara pegou
ele, bateu muito, e jogou, tenta caminhoneta, e levava ali, o inaço tinha 19 anos, e o
Pedro tinha 42 anos.
Tem uma irmã que ela tá aí, que é a mãe dessa daqui, saiu com a bala no peito, entra
a vida e a morte, hoje vive do ente, com o problema desse sistema nervoso, um já tombou
por causa dessa bala, outro tá aí operado, já não tomou debaixo do braço.
A bala dessa marca é essa aqui, olha, e aqui foi por onde tiraram ela, só Deus é
quem sabe o que eu aguentei com essa bala no meu peito, Deus saber que meu irmão tinha
morrido, meu cunhado tinha morrido, e eu com o hospital, e minha mãe, casa de morte
em casa e casa que eu chegava encontrar minha mãe enterrada também, aí fiquei sem meu
filho, fiquei sem afundo, fiquei louca, fiquei doida, cheguei aqui no domingo, tava aí
a irmã tem o feio, o barraco queimado, morto, ela tava no pé da bandeira, levaram pra bandeira.
O senhor mais velho, ele correu em direção ali, olha, ele já tava abaliado, aí ele
ia tombando assim, aí o cara pegou ele assim, bateu tanto nele, isso foi a derradeira coisa
que eu vi dele, ele gritando, pedindo socorro, e ele ia tombando e o cara segurou assim
a cabeça dele, esbagaçou de pancada, e o outro a gente sabe que levaram, mutilaram ele
todinho, cortaram ele todo, fizeram uma coisa muito feia nele, e jogaram dentro do
rio, e depois, um dia depois foi que a gente encontrou o corpo dele, mas já tava todo
estragado.
Essa criança, eu tinha até medo de andar com ela, porque aonde via a menina do massaco,
olha a menina do massaco, era ela, que era representante do massaco de Pedro Inácio,
agora somos nós que estamos na história, não só foi Pedro que morreu, como não foi
Pedro de Inácio que tombou, como tombou um na porta do banco, tombou mais um aqui dentro
do acertamento, tudo por mandado pelo lado de Fuliano, e por que aquela justiça não
sabe quem foi que matou, sabe?
O Josimá pegou o corpo de meu irmão, pegou o corpo do meu cunhado, pegou a jogar dentro
do rio, quando chegou para matar, para lavar o carro, o lavador do carro perguntou, o
senhor, que foi isso que o senhor matou o Josimá?
Ele foi a responder, eu matei dos poitos, meu irmão não era poito não, poito um dia
eu vou ver ele dentro da rádio.
O nosso entendimento é que naquele momento simbolizou todo o ódio, toda a raiva de classe
que tem os osineiros aqui no estado e no nordeste como um todo, historicamente eles sempre dominaram
e Camarazal está situado na zona da Mata Norte, região que o latifundo sempre foi muito
violento.
Camarazal simboliza a violência inerente ao latifundio.
E a partir da monocultura da cana, concentra-se mais requeza, escraviza o homem, escraviza
a terra e com isso concentra também mais poder e mais violência.
Porque existe muito o pistoleiro, esses homens ricos mandam matar e o pistoleiro não vai
preso, o homem que manda matar não vai preso.
E a gente saber disso tudo e ficar calado por conta de uma justiça falha que existe no
Brasil, porque no Brasil até hoje eu digo, ainda não via a justiça no Brasil.
Nós é explorado pela justiça, nós leva a cacete na porta do banco, leva a pau de
feita, é até engemado nós, o panheiro só engemado, que foi uma vergonha para o Brasil.
Aí isso que eu tenho a dizer a vocês, que não adianta mais a gente criticar a morte
de um feminista, que o que eu quero, que o dia que engema o latifundiário que fez isso,
esse pistoleiro que fez isso.
Camarazal faz parte de um grupo de tentativas de genocídio contra a classe trabalhadora
neste país.
Eu estou falando de camarazal, canudos, candelária, contestado, poderia continuar
com muitos nomes e números, mas os fatos falam mais alto que os números e as estatísticas.
Então eu quero justiça, eu quero o ruído dentro da cadeia, para eu ver, ele dentro
da cadeia, e eu tenho fé em Deus de chegar lá e amostar essa maica que ele feineu.
Eu tenho fé em Deus de ver ele dentro da cadeia, para eu amostar a ele o que foi que ele
fez comigo.
Eu queria uma justiça bem feita, ainda do que está com 10 anos, não queria ainda
despegar uma justiça bem feita para quem fez isso para ele, para ele me afender, porque
meu fim não era para ele tirar meu fim da minha vida, não.
10 anos depois, o Estado não apurou, não existe nenhum inquérito, não existe absolutamente
nada de investigação, a não ser as denúncias que o próprio movimento fez e continuou
a fazer, achando que é necessário fazer justiça, é necessário a cunição.
Os trabalhadores do campo e da cidade continuam vivos, resistindo, revelando, é sinal
que as atrocidades cometidas pela elite ou melhor a escoria deste país não vão conseguir
dominar a classe trabalhadora.
A gente tem que ocupar, a gente tem que fazer alto, porque se cruzar os braços, pior fica.
Aí eu ia mostrar o que houve em gente, o DIN, o que era o CINTERRA, porque o cara que
quer vir para uma terra, porque está morrendo de fome, porque lá mesmo eu vivia morrendo
de fome.
A gente ainda tem um cozinhar de feijão para eu com medo em tudo, lá dentro do mundo
o pé a gente pediu isso e os patrões os patrões não dava, só merece invadir, tudo
aí.
E quando aconteceu isso, a gente ficou sentindo, recebendo meiaço do seu dejeito, o dejeito
e o dejeito, mas assim a gente não treinou, a gente enfrentou e toquei para a frente e
tomou aqui, na mão, quem perdeu o coelho, a gente perdeu pela parte, mas se a ganança
dele era pelo engenho ele perdeu, perdeu ou bem perdido.
A gente está no assentamento perinácio e antes era o camarazal, uma homenagem dos
companheiros que morreu no massacre e a gente botou no assentamento perinácio.
O camarazal representa essa simbologia de um engenho bastante, digamos, atrasado do
ponto de vista socioeconômico, onde a repressão sempre tomou conta desse processo e que houve
a violência, houve o massacre e os trabalhadores lutaram e venceram.
Hoje vivemos, digamos, uma situação diferente, os trabalhadores estão assentados, então
apesar de tudo nós conseguimos uma vitória.
Então nos esquecemos dos nossos mártires, o sangue dos mártires é a semente da luta
que nos anima para construir nova sociedade.
Assim tem a coragem e não tem a medo do outro lado mundial que ameaça, que prometa a morte,
ele pode até matar, mas a gente querendo conseguir, a gente consegue.
E era o sonho deles, do pede e do inácio, era viver na terra, viver na luta e produzir.
Aí eles não desistiram.
Eu senti a morte de meu irmão, mas vivos as feitas, porque meu irmão morreu lutando
pelo pedaço de terra, morreu com uma consciência limpa, morreu batalhando pela vida.
Eu sinto que eu estou feliz, por ter vinha cica aqui atrás de terra, minha casinha
para morar, escola para os meus filhos, transporte para levar os meus filhos para o colégio
trazer, mesmo em risco de vida, mas eu tenho, eu me encontro rica, graças a Deus, agora
porque eu tenho certeza que o que falta dentro de mim só é o vendedor por trás das grades,
é que minha leveia um pouco, tenho certeza disso, é só risco que eu tenho a dizer.
Justiça, procuram, mas onde é que está?
Pois sempre escutam do lado de lá um riso satânico, de quem não tem planos, tipo na
cadeia quem manda matar, matar o nosso corpo, matar o sorriso, matar o juízo de se libertar.
Mas qual o caminho?
Envi perguntar, que essa agonia não jogue sementes na inclusilhada do desanimar, mas numa canção
juntar nossas mãos para junto trilharmos a mesma estrada, plantando na marra uma poesia
que nos leva um dia ao mundo dos livres.
