Hoje é 25 de dezembro de 2010, 22 horas.
Adelino, fã fanático de Rogério Carlos, demoraria no banho 3 horas 52 minutos e 45 segundos
para vestir sua melhor roupa para o especial do rei.
Uma certa emissora.
No mesmo milésimo de segundo, Marília descobre que seu corpo ganhou a batalha contra a tintura
de seu cabelo.
Um minuto depois, ninguém escuta as palavras saindo da boca de Adelino.
Meia hora após o inicio do especial, Marília de raízes grisalhas e vestida de qualquer
jeito entra na sala e pergunta a ele, o que está acontecendo?
O que foi Adelino?
O rei não é mais Rogério, é Amado.
Mas Adelino, o rei nunca foi o Regério.
Mas foi, tu não me entende, eu quero que tu me apoie.
Mas eu te apoie, mas isso não é verdade.
Mas me apoia?
Tu nunca me apoia em nada?
Como não te apoia há anos que eu te apoia, mas tu fica com essa coisa do rei do Amado.
Eu não sei.
Mas eu quero que tu me apoie, nessa vez eu estou certo.
O rei é Rogério, não é Amado.
Quem é Rogério?
E no final da discussão, já acreditando ter caído numa dessas pegadinhas do Silvio
Santos ou participando de uma conspiração da emissora concorrente, ele é surpreendido
pela pergunta.
Quem é Rogério Carlos?
O retardado Ballão do Alfredo, José do Brasil.
Suzana Silveira, psicóloga, trabalha num pequeno consultório em Porto Alegre, não
gosta de falar de seus sentimentos ou se relacionar com outros seres humanos.
Muitos a odeiam por ser constantemente alegre ou normalmente se afastam por serem mais depressivas.
Então, vocês já estão separados? Não. Não, doutora. E como é que eu posso ajudar vocês? Não. Não vai falar. Não. Então eu vou falar.
Sabe o que é, doutora? É que já faz um... Ok, ok. Eu falo. Só quero deixar bem claro que eu venho aqui obrigado e desesperado, viu, doutora?
Compreendo. Eu ultimamente tenho fantasiado com amado Batista. Eu posso garantir que o senhor não é o único. E isso, de alguma forma, tem afetado o relacionamento de vocês?
Não. Doutora, isso vem desde o programa do rei. O Adelino tema que o rei não é o rei. Maluco, né? Eu sei. Doutora, eu não conheço mais o Adelino.
Às vezes eu falo com ele e não sei se ele é o Adelino ou se é esse tal de Rogério Carlos. Como assim?
Doutor, ele tem 45 anos e ele teima pior. Ele pensa como esse tal de Rogério Carlos. Agora eu pergunto para a senhora, doutora, quem é Rogério Carlos?
Marília, eu sinto que você está odiando o seu marido. Te falei que era boa. Ai!
Adelino, como você se sente em relação a isso? Como eu me sinto? É só ver a reação dela, doutora. E isso é como se tivesse dado um chute. É só ver a cara de cu dela, doutora.
Eu posso dizer que era de cu, né? Não tem nada pior para dizer? Ok, ok. Eu disse que todos estavam loucos, que o rei não era aquele. Ela não me apoiou, doutora. Ela não me apoiou, doutora. E o pior, ela teve a coragem de dizer que eu não mandava mais em casa.
Como assim? A coragem de dizer que você não mandava mais em casa? Desde quando você mandou em casa? Ah! É uma regra social? Todo mundo sabe disso?
É uma regra social do tempo que vocês mandavam. Vocês homens nunca souberam de nada. Mas agora, a presidente é mulher, nós tomamos as decisões. E como assim eu nunca te apoiei em nada?
Eu disse que tu não me apoiou agora. Quer dizer que eu tenho que apoiar mesmo quando estiver errado.
Tem que apoiar. Ah, é bem difícil. Tu tem que apoiar sempre. Ai, eu não te apoio nunca. Sim, sim, tu já me apoiou. Mas agora eu estou certo. E eu posso provar.
Então tá, quem é o Rogério Carlos? Ele é o Rogério Carlos. Ai, mas quem inferno chega, Delino? Chega!
Ok.
Você vai para casa agora? Eu vou depois.
Até depois. Apera.
Rogério.
Adelino sente que está em desequilíbrio consigo. O mundo está em ruínas. Tudo é uma grande merda no momento. O barulho da cidade, o lixo da rua e o ar frio que entra em seus pulmões o faz descobrir que não possui mais 20 anos.
Eu sou tão ligado ao Pedro que eu também não consigo imaginar o que é a perda de meu irmão. Mas talvez seja melhor. Eu procuro um hotel que não seja muito caro.
Olha, tem uma moça muito boazinha. Adelino! Adelino, fala comigo, o que que aconteceu?
Me ajuda.
Adelino, tu amo o teu cabelo. O rei amado não é Rogério.
Você queria que eu cortasse como?
Sei lá, só cortar fora.
Eu entendi, mas eu cortava fora tipo um chanel mais curtinho, raspado, com franja, mais curto, repicado. Eu ia adorar se fosse repicado, imagina você de cabelo repicado.
Sempre quis te ver com um visual mais moderno.
Nossa, Adelino, seu cabelo está muito mal cortado, cheio de ponta dupla. Adelino, há quanto tempo você não corta esse cabelo? Isso é uma ofensa para o seu cabelo.
A gente vai encontrar o especialista e o senhor vai deixar de ser pão duro e vai pagar alguém para fazer um corte decente no seu cabelo.
Marília!
Nada!
Tu acha que fica bem repicado?
Claro que sim.
Ele vai salvar o teu cabelo.
Quem é Clóvis?
Hoje é 7 de janeiro de 2011, exatamente 9 da manhã. O destino de Adelino mudou de curso. No entanto, sua antiga roupa tenta desenfreadamente chamar sua atenção.
Ela cai no chão, deixa cores botar por causa do sol, deixa as traças comerem seu tecido e, por último, decide balançar conforme o vento. Mas, minutos depois, sem resultado positivo algum, decide, por hora, aguardar por Adelino.
No mesmo momento, Susana descobre no seu celular que Rogério Carlos abrirá o Rocking Hill, e ele será o único roqueiro no festival de Rocking Hill.
Por isso, Adelino decide interpretar Amado Batista para levar Marília para o quarto. A morte não me parece próxima e nem o desejo de ir para a academia, mas ele continua se perguntando quem era Adelino.
Eu tenho fantasiado com Amado Batista.
O Adelino tema que o rei não é o rei.
Eu posso garantir que o Senhor não é o único.
Adelino não é o único.
Adelino não é o único.
