O sujeito do que faz o senso do VGE chegou à casa e da pergunta é para perguntar a
cor preto, ele vir e falar, você tem certeza? Tem, não, mas pode ser pardo, e eu fiquei pensando
por que cara?
Ele pensou a pergunta, será que é porque pode ser pardo ter todos os benefícios que
os negros têm?
Não precisa ser preto, ter preto não tem vantagem nenhuma, você não precisa ser preto,
você pode que ela é pardo, é alto declarado, porque pensando, acho que é isso que faz na
cabeça do cidadão né, quando você tem certeza que você é preto, você quer ser isso cara?
Você pode ser pardo cara, deram o municlismo de alto no meu coração.
Eu não passei de primeira premedicina, logo que eu perguntei com a média, a minha nópia
estava frente à enfermagem, eu entrei, acho que ia ficar uns alguns meses assim, tinha
um pouco de perigo, mas entrei uns meses na enfermagem, ele estava começando com as
pessoas, com essa pessoa sobre a cidadão que eu tinha tomado, ele precisou arregar a
faculdade de enfermagem para tentar ver tipo lá para a medicina, e aí quando eu falei
ela ficou com a mão assim na cara, não menina, não faz isso, porque quando a gente sai de
faculdade, que não sei o que, e agora que eu pensei nisso, eu entendi, tipo assim cara,
você não vai passar pela medicina, fica lá, logo que você forma, logo o mesmo negócio,
sabe, porque ele já recorre a chance de você passar pela medicina cara, enfim me lembrei
disso agora, mas é isso.
Eu estudei minha vida inteira, é como um bolsista numa escola na Baixada mesmo, e quando
eu terminei eu não consegui passar, e eu fiz mais um ano de cursinho na Baixada e aí
não consegui, e meu pai falou, não, minha filha, vai para esse cursinho super caro,
eu vou me virar, e você vai fazer, e você vai conseguir, mas é só esse ano, porque
se você não passar fazendo, não vou ter dia para parar de novo, e aí nesse tempo todo,
que era um tempo em que eu estava no ônibus amassada, ou no metrô amassada, sem conseguir
respirar, porque tudo lotado, e aí eu ficava pensando, porque eu tinha que passar por
tudo aquilo, porque que eu tinha que perder cinco horas do meu dia, quando eu deveria
estar estudando, só dentro do transporte, para conseguir chegar no cursinho, para conseguir
estudar, porque que meu pai tinha que estar dando aula em seis colégios, é de sete da
manhã até dez e vinte da noite, para poder pagar um cursinho para passar por uma universidade
que eu queria, e eu estava vendo tantas pessoas ali que não estavam fazendo nada, que não
estavam passando por nada disso, mas apesar disso tudo, eu continuei estudando, e falei,
eu vou ter que ser esse ano, meu pai já me deu a visa, e aí eu passei, e aí quando
eu passei, eu realmente não tinha amigos no cursinho, eu conheci uma pessoa ou outra,
e aí um dos meninos que eu conhecia, ele falou assim para mim, eu falei lá no cursinho
que você passou, e aí todo mundo falou, nossa ela passou, ou é, ela passou?
Eu estava conversando poucos dias com a minha mãe, e ela, por muito tempo na vida dela
foi empregada doméstica, e a maioria das casas que ela trabalhou, ela cuidava, ajudava
a cuidar dos filhos, das crianças, dos meninos, um desses queria fazer faculdade de medicina,
e o vestibular de um desses coincidiu com a política de cotas da URG, e um desses meninos
ele recebeu uma educação de qualidade, uma escola privada, muito boa, e eu já quero
pagar, escola ESV, que tempos depois eu passei a ser bolsista nela, esse menino não passou
no vestibular, e a culpa era praga das cotas, e minha mãe achava que cotas era uma coisa
boa, mas dentro dessa casa ela viu que tudo ele era muito ruim, porque estava prejudicando
aquele menino que ela via dias e noites desafios estudar, e ele sempre foi um menino muito
dedicado e ele não passou no vestibular por causa da praga das cotas, aquele grupo de
pessoas eu com certeza já incomodei no momento em que eu passei como cotista, e roubei a
vaga, entre aspas, de muitas pessoas para quem ela trabalhou, a gente tem a parte prática
da anatomia, que é com corpos no casado, e bem no início da faculdade me explicaram
que aqueles corpos que vão pra lá são corpos não reclamados, e aí é muito triste ver
que são corpos negros assim, isso é uma coisa muito difícil de lidar, porque a gente sabe
que durante a história da escravização, por exemplo, as mulheres negras eram submetidas
a estupros, e aí eu chego no anatômico, e aí o corpo que vai ser utilizado pelo dia
produtório, que as pessoas não têm o mínimo respeito, é o corpo de uma mulher como eu,
sabe, e que de certa forma é um estupro, sabe, e eu tenho que lidar com isso, porque eu
preciso aprender anatomia, eu preciso ser um profissional de saúde, eu preciso ver aquilo.
E o meu estalo veio esse ano, no início do ano, quando eu comecei no rodizo de clínica
médica na enfermaria, onde todos os residenciam brancos, meu estafo era branco, quem tava dividindo
comigo como interno também era branco, os únicos negros eram enfermeiros, e o técnico
de enfermagem da enfermaria, e aí eu cheguei em casa depois de duas semanas e surtei, chorava
demais, eu falava, mãe, não é o meu lugar, o que eu tô fazendo aqui?
A gente só reconhece o negro ali como técnico de enfermagem, como enfermeiro, e vou dizer
que 70% dos leitos dos pacientes, eles são com pessoas negras, então, é nessas pessoas
que a gente se identifica e acaba fazendo algum sentido pra você estar ali, porque pros outros,
de fato, a gente estar, a gente ser, é um grande incômodo.
E alguns que eram para trás na UERG estavam numa época de cortes na anorçamento da universidade,
e a primeira coisa que a universidade fez foi, obviamente, cortar a bolsa de assistência
e permanecer estudante, e disso a gente estava discutindo no grupo da turma, que vários pros
estudos da UERG tinham se paralisado pra poder pressionar a administração da universidade,
porque a maioria dos estudantes que dependem da bolsa, são estudantes negros, são estudantes
pobres, precisam daquilo pra poder, tem gente que precisa daquilo pra se sustentar na universidade,
que dependem desses 400 reais pra poder se manter vivendo no Rio de Janeiro.
E diante disso, de muitas discussões na turma, basicamente, todas as pessoas brancas ricas
da zona sul, que são a grande maioria da turma, inclusive, entre os estudantes que
passam por foto de negros, falam dando a auto declaração e falam dando a renda, estavam
dizendo não, não precisa paralisar, essa bolsa não faz diferença, se estiver difícil
pra algum cotista que dentro da faculdade a gente faz uma vaquinha pra poder pagar uma
alimentação, uma sheriffs, não precisa de estúdio, continua estudando que tá tudo
normal.
O fato de a gente estar presente, de a gente existir naquele lugar, em uma posição de
não subir a alternidade, em uma posição de igual pra igual com qualquer outro brão,
a gente incomoda.
Então, você, acho que a gente vai incomodar sempre, como médicos negros, sabe?
Quando eu coloquei transo no meu cabelo, as pessoas começaram a reparar na minha sala,
quando aconteceram coisas bem esquisitas, assim, porque as pessoas começaram a tocar no
meu cabelo, sem a minha permissão, como se fosse um objeto de propriedade delas, assim,
algumas pessoas chegaram a puxar meu cabelo e perguntaram se doía, tipo, além dos comentários,
tipo, nossa, acho que ficou bem você, mas ficou o cara de sua, ou então, tipo, nossa,
como é que se lava, parece impossível de lavar e ficar fedendo.
Quando aquele médico foi esfaqueado na Lagoa, eu fiz uma falha dizendo que se eu pudesse
optar entre ele e os 87 jovens negros são assassinados por dia no Brasil, eu optaria
pelos 87 jovens negros que são assassinados, não pelo médico, e quando eu fiz isso, aquele
bando de estudante branco, de medicina, veio em cima de mim defender a categoria médica
que eles pretendem ser um dia e me chamavam de racista inverso, afro-hitler e de várias
das coisas e não conseguiam entender aquilo que eu estava querendo dizer, só me atacavam.
E um amigo meu acabou de fazer uma postagem no Facebook falando sobre os cento e tantos
franceses que morreram, dizendo que estava nem aí para eles, que existe uma série de
outros problemas no Brasil, na África, na Ásia e no mundo que são muito piores que
aquilo e que para ele vale mais qualquer um desses do que os cento e tantos franceses.
E todos os comentários que tiveram na postagem dele, apenas um foi questionando essa questão
dele, dizendo que todos seus vidros importam, e todos os outros eram de palmas e de apoio,
e esse meu amigo você pode imaginar porque ele é, e aí para mim ficou evidente que não
é meu discurso incomodo, sou eu incomodo.
Vocês se viram muito incomodados, enfim, se sofreram mais, não sei se viram muito mais
incomodados por serem negros, acho que foi muito mais claro para vocês por serem negros.
Para mim é mais fácil ver o incomodo por ser gay, é engraçado porque eu me sinto
miope, a sensação que dá é que por ser gay, eu não consegui enxergar o incomodo por
ser negro, é óbvio que eu incomodei por ser negro, eu sou fio, eu sou, eu sou neto preto
da minha vó, eu estou fazendo medicina, eu sou igual aos meus primos que estou fazendo
medicina de som branco, que tiveram dificuldade diferente das minhas, e é óbvio que o fato
de eu ser negro incomodou, incomodou os patrões da minha mãe porque a filha dele que queria
medicina não consegue, mas quando vem para falar com você, nossa, você passou em medicina
tipo, você não sou medicina, eu passei em medicina, e eles não sabem que eu sou gay,
então provavelmente é porque eu sou preto, filho da empregada deles, da funcionar, deles
enfim, mas isso pra mim nunca foi muito óbvio, porque tinha algo maior pra mim, tinha algo
que me incomodava mais, tinha algo que eu não sabia lidar mais do que ser negro, quer
ser gay, e sim, eu incomodo, eu incomodo muito, eu faço questão de incomodar, eu incomodo
na faculdade, quando eu rebolo, eu incomodo na faculdade, quando eu olho pra alguém, eu
incomodo quando eu ando na rua, e eu tenho vontade de olhar um homem, eu vou olhar, eu
incomodo quando eu estou beijando meu namorado, e tem alguém me olhando na rua, e aí que
eu vejo mesmo, porque se fosse um casal hétero, ninguém estaria olhando, eu estou fazendo
nada diferente de ninguém, eu estou fazendo nada do que eu, tenho vontade de me vergonhar,
então eu incomodo sim, incomodar é bom, dói, como dói, mas é bom, é isso, faço questão
de incomodar, e agora eu vou incomodar sem uma bicha preta, vou incomodar mais ainda.
