Entre 2004 e 2006, Abram DH, com apoio da FAO, desenvolveu dois projetos piloto, junto
às comunidades de Sururu de Capote, em Alagoas e Vila Santafonso, no Piauí.
O objetivo foi contribuir com o apoderamento das comunidades e apoiar ações para exigir
e monitorar a realização de seus direitos humanos, em especial o direito humano à
alimentação adequada.
Já passou fome na vida?
Nunca.
Graças a Deus até hoje.
Graças a Deus.
Até hoje.
Qual que é a sensação, hein?
É a sensação ruim.
O cara fica paralisado mesmo, pedindo a um e a outro.
Mas, graças a Deus, arrumou o emprego e passou essa fase.
Já passei de fome?
Já meu.
Já passei, já passei e não está descartada essa possibilidade, porque nós vivemos em
um país que é alto índice de desemprego, quando o cidadão chega em uma faixa etária,
da minha faixa etária, por exemplo, já fica muito escasso o mercado de trabalho e também
consequentemente é como se diz, como o poeta já dizia, o homem que não tem trabalho
e não tem dignidade.
Cheguei a pedir ali na cara, porque eu vime esse pedindo e eu não tenho para onde correr.
E eu vou ter meus dois filhos do lado e sair pedindo, porque é melhor o pedido que roubar.
Eu não tenho vergonha de dizer que já passei fome.
Já passei muita fome na minha vida.
Porque a fome, ela não te dá essa privilégio de você dormir, porque a única forma que
tem que se passar o tempo é dormir, né?
A dor da fome é uma coisa muito simples e muito complicada.
A dor da fome não dá a entender e a gente procurar o remédio que ela vai encontrar.
Como é que você se sentiu?
Eu me senti mais uma vez roubado os direitos do cidadão, porque quando um cidadão brasileiro
ele passa a ter fome, a sentir fome e não ter alternativas como buscar, aí consequentemente
a gente sente realmente lesado.
Se a mãe está grávida, não tem uma boa alimentação, esse bebezinho dela não vai crescer, vai nascer
magrinho, pequeninho.
Aí esse bebê nasce magrinho, pequeninho, ela às vezes não amamenta esse bebê, esse
bebê vai ficar mais magrinho.
Aí ele tem uma desnutrição, aí já pode afetar o cérebro, então é uma pessoa que
sua potencialidade já vai estar reduzida.
Uma criança dessa, ela vai para colher de manhã e o café dela é um café simples,
café preto mesmo.
Compecou a banda de pão, um biscoito, água e sal, qual a resistência que ela vai ter
na sala de aula para absorver o que o professor ensina, né?
A alimentação adequada não quer dizer só o alimento em si, quer dizer todos os direitos
humanos indivisivos, porque de que adianto você ter um alimento diversificado se você
não tem onde colocar, onde se alimentar com dignidade?
Para eu ter direito a uma alimentação adequada, eu tenho que ter uma casa, eu tenho que ter
água, eu tenho que ter educação para eu saber que aquele alimento é bom, esse não
é.
Eu tenho que ter trabalho para comprar o alimento, ou então tenho que ter uma terra para plantar
esse alimento para eu consumir e vender e poder comprar outras coisas.
A questão alimentar não é só uma questão de dieta, é uma questão de saneamento,
é uma questão de emprego, é uma questão de educação, então quando nós olhamos
as políticas públicas articuladas que envolvem o tema da segurança alimentar, nós vamos
observar que para concretizar algumas dessas metas, um conjunto de fatores tem que ser
implementado.
O direito a alimentação é muito mais complexo do que simplesmente o ato de comer.
Agora mesmo o ato de comer é uma boa parte da população brasileira, tem dificuldades
para obter acesso a esse direito.
A fome no Brasil, ela é estrutural ou ela é moral?
A fome é o resultado de uma profunda desigualdade social que é estrutural, ela vem desde a
época da colônia.
Eu diria que ela é mais do que moral, ela é ilegal, quer dizer, o governo brasileiro
e o Estado brasileiro assumiu compromissos internacionais de tratados internacionais
de direitos humanos, firmou esses tratados, nos quais ele se responsabiliza, assume a
obrigação perante a comunidade internacional, de garantir o direito a uma alimentação
entre outros direitos a todos os cidadãos, portanto, além de uma questão moral, é
uma questão de ilegalidade.
Foram 350 anos de exclusão, a escravidão é a forma mais brutal da exclusão, metade
da sociedade brasileira é composta de escravos quando o país tornou independente, portanto,
metade da população brasileira sofre a forma mais violenta e brutal da exclusão, fazendo
um vínculo com o tema da alimentação da nutrição.
O negro do eito comia no coxo, que nem animais comiam no coxo.
Quando houve abolição, depois de tanta exploração, sofrimento, a grande parte da população
habitante das fazendas migrou para as cidades e foram os núcleos iniciais das favelas brasileiras,
alimentados como animais e depois salvos que impuderam.
Uma sociedade escludente que não oferecia trabalho para todos, desemprego altíssimo
sobre o império também, populações marginalizadas, favelizadas, crescendo cada vez mais, a exclusão
social nasce com a história brasileira.
Mas que continua existindo hoje, ainda continua vendo uma elite brasileira que é dona do país
e que deixa a maior parte das pessoas fora do processo econômico e social?
Naquele tempo só eram os negros, agora é o negro, é o branco, é o amarelo, todos
estamos escravos, nós pobres.
Escravo de oportunidade que a gente nunca vai ter, uma universidade, abolim um computador,
tecnologia, escravo da tecnologia, nós continuamos na fogo de lenha, nós continuamos sem ter
nosso fugão à eletricidade, tem coisas que a gente não sabe nem Bolipe, eu mesmo viajando
por aí, hoje mesmo fiquei presa no apartamento que eu não sabia nem coisas que a gente aqui,
bolini, chave normal, chave eletrônica, essas coisas.
No Brasil a produção de alimentos sempre foi algo secundário, a agricultura, pelo colonial
é agricultura de exportação, é produzir para o mercado externo, não é produzir para
as surpresas das cidades alimentices do brasileiro, era produzir açúcar pro mercado mundial,
uma estrada de café pro mercado mundial, borracha pro mercado mundial, café é para tomar cafezinho,
não é suficiente para alimentar uma população, açúcar é para adoçar alimentos e o Brasil
continua produzindo para exportação, a soja é para alimentar nem sequer seres humanos
em outros países, para alimentar pódicos, não há comida na mesa do brasileiro e os
camiões e navios saem carregados de soja para os Estados Unidos e Europa, o Brasil
podia ser um grande país agrícola para alimentar toda essa população, os quase 200 milhões
brasileiros e não entanto que é uma vergonha nesse país onde não há desertos, onde o
problema da água não é tão grave, se a água não subsole, o brasileiro passa fome.
Onde fica a surru de Capote?
Aí embaixo, olha lá no trafico que está sempre lá, é uma das suas horas mais perigosas que tem em Maçor, dá muita violência.
Tem muito marginal, tem muitas pessoas necessitadas, tem muitas crianças abandonadas.
Porém, no Capote tem de tudo, mas ali dentro também tem seres humanos.
E a gente só está descriminado por lá errado, para vagabundar, são traficantes, são maconheiros,
são prostitutas sem vergonha, que nosso cílio também são marginalizados também por isso
e a gente quer mudar isso, quer que nosso cílio tenha o direito de chegar a uma faculdade.
Que o nome foi dado como sururu, por causa do sururu da Lagoa, aí a gente pegou para
nossa favela, para dar um nome para a favela e daí surgiu o sururu de Capote.
Eu moro aqui há 18 anos, eu fui um dos fundadores dessa favela.
E por que seus pais vieram para cá?
Meu pai foi despedido da usina, porque ia um derrubar a casa e saiu sem direito a nada,
como ele não sabe do direito dele, ele deixou para lá.
30 anos de trabalho na usina e não teve direito a nada.
Acabar aqui na favela sem nada, sem ter um trabalho, sem ser aposentado.
E já passou fome aqui?
Já, e muito, eu já cheguei com a fusão de dormir, meu cílio dormiu sem comer, chorar
e com fome, porque nossa mamãe Lagoa, ela tem um período de três meses que não tem
nada para ir.
Vou ganhar hoje para comer amanhã.
Com a lata sul hoje, paga R$1,25 para as brincadeiras.
Aí vai comprar lenha, compra papo de serra, compra a lata, compra o gelo, quando é amanhã
ainda paga a passagem para o mercado, R$2,50 com o invito simples, R$3,75, a despesa, ela
dá um quilo e meio vendido a R$2,50 quanto é que dá?
Agora aquela pessoa ganha o queira, aquela lata de surru, para alimentar a família.
A situação de vida da população de surru, de capote, é um resultado de um conjunto
de omissões do estado brasileiro, ou mesmo de ações do estado brasileiro.
Por exemplo, o governo pode ter uma política de apoio à grande agricultura, por exemplo,
que leva à expulsão de pessoas da área rural, forçando elas a perder a sua terra e a sair
para a área urbana.
E quando chega na urbana, ela não tem nem capacitação, nem condições econômicas
de comprar nada, e ela acaba tendo que se ocupar algum espaço público que está disponível
naquele momento para viver lá.
A comunidade de surru de capote é uma comunidade lutadora, batalhadora, tem força de vontade
para lutar e vencer na vida, agora só aqui cadê as condições que o jogo competente
não trazem para a comunidade.
E elas acabam ficando lá até que algum governo chega e resolve criar uma orla mais
bonita para os ricos.
Aí elas viram um problema, então elas são expulsas, são chogadas para outro lugar.
E ao invés de se tentar, de se fazer uma ação clara, de incorporar essas pessoas e garantir
os direitos das pessoas, de forma que elas pudessem ter uma vida digna no local onde elas
estão, a tendência é elas serem vistos como um problema, como um vistáculo para que
os projetos políticos sejam implementados.
Ou seja, elas nunca são vistas como sujeitas de direito, mas sim como um problema, um
problema para os outros, especialmente para os ricos.
Eu fugi de casa com sete anos, fugia, voltava, fugia, voltava, minha mãe me pegava, comecei
a usar droga com sete anos de idade, revoltada porque eu vi a realidade da minha família.
Fui mulher com dez anos de idade, comecei a tornar minha vida.
Quando eu comprei 14 anos, eu tive meu filho, primeiro o filho meu, foi duro para mim porque
eu usei muito crack, né.
As drogas não deixavam eu sustentar o filho, porque eu tive 12 filhos e só tenho 5 vivos.
Aí um médico do Tomarco disse para mim, você vai ser uma guerreira um dia.
Então por isso que eu deixei as drogas e comecei a lutar pela comunidade e a lutar
pelaquelas meninas.
A gente passou um mês na prefeitura, passamos fome, passamos muita dificuldade, conseguimos
derrumar os quatro a eliminar que vem, todas delas chegaram, era 45 dias e a gente corria
atrás, corria atrás das autoridades, era meio que bate em porta fechada.
Nenhuma delas aprendiam, a opção da gente para que hoje a gente esteja aqui no local
é graças a Deus já começando a morar melhor, porque nossa luta mesmo, luta batalhadora
mesmo, vencemos e hoje nós temos uma história para contar.
Tá aí, a própria caixa econômica agora, com esse projeto de morar melhor do governo
federal, após a desaprofiação, resolveu construir agora, nesse primeiro momento, 130
casas do total de 160 e 609.
Eu não sei o que que está acontecendo, porque o dinheiro veio para a gente ter a moradia
morar melhor, uma casa com coisa boa, tudo bom, está dizendo morar melhor, aí a gente
recebeu material de péssima qualidade e ainda vem muitas coisas que está faltando.
Tem o fato aqui que aconteceu com a gente, quando a gente estava colocando o teto da
casa, toda a madeira já estava colocada e aí os meus trabalhadores estavam espalhando
a telha pelo teto, aí quando aquela linha da sala foi e rachou no meio, aí a toda
sala desabou, veio abaixo, aí imediatamente a gente ligou para a prefeitura, a prefeitura
assolou o fornecedor que está fornecendo a madeira do projeto.
E hoje a gente sabe aonde a gente recorrer, aí a gente corta na prefeitura, a prefeitura
recua a gente, não quer atender a gente, aquela dificuldade toda, e a gente já procura
o Ministério Público Federal.
Foi alguma coisa até errada, hoje é ir assim, que é a liderança da Velocita Afonso Liga,
para o gestor público e fala, ó, isso não está correto, e não está correto, não é
só não está correto, isso está contra lei, todo o serviço público tem que ser adequado,
tem que ser eficaz, então o fato dela se reconhecer como sujeito de direitos mudou a relação
delas com o poder público, e essa mudança gerou uma mudança neles também, da forma
como eles tratam essas pessoas.
A liderança, então a gente batalhou muito para conseguir essas casas, conseguimos, estamos
todos aí, está aí lutando, ainda batalhar para a segunda etapa, só que não tem previsão,
e por aqui a minha única que não entrou, da primeira etapa, né, e não tem previsão
para a segunda, mas nem por isso a gente parou com a luta, continua lutando.
Você tem que unir a força, assim, para que a comunidade toda seja beneficiada.
É bonita a construção das casas de alguns de vocês, e do outro lado eu olho outras
pessoas da mesma comunidade com outra situação, a mesma situação igual a vocês que não
conseguiu, então é bom colocar a mão na massa mesmo, não deixar esfriar.
Existe uma lei no Brasil que diz o seguinte, escuta aqui, artigo segundo, a alimentação
adequada é direito fundamental do ser humano, inerente à dignidade da pessoa humana e
indispensável à realização dos direitos consagrados na Constituição Federal, devendo
o poder público adotar as políticas e ações que se façam necessárias para promover e
garantir a segurança alimentar e nutricional da população.
O que você achou dessa lei?
É tudo, né, porque se a gente tem esse direito, a gente tem que buscar, né, tem que correr
atrás, porque é muitas pessoas que estão precisando dela.
Carta magna da nossa nação, ela reza isso, né.
O que ela reza?
Ela reza que o governo, ele tem por obrigação, em ceder para a sociedade, alimento, trabalho,
moradia, educação, saúde e lazer, são os seis pontos básicos para o cidadão brasileiro.
Essa lei é aplicada aqui em Sururu de Capote?
Não é aplicada, porque aqui é a lei de cada um, ou você se mata para trabalhar no Sururu,
ou você morre de fome.
Artigo terceiro, a segurança alimentar e nutricional consiste na realização do direito
de todos ao acesso regular e permanente a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente
sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais, tendo como base práticas alimentares
promotoras de saúde que respeitem a diversidade cultural e que sejam ambiental, cultural,
econômica e socialmente sustentáveis.
É isso que a gente chama de segurança alimentar, é primeiro reconhecer que a alimentação
é um direito das pessoas, portanto, é obrigação do Estado oferecer às pessoas, mas é uma
alimentação que incorpora todas essas dimensões, ela tem que promover saúde, não pode ser
uma alimentação qualquer, tem que ser regular, é dizer, todo dia, eu não posso ter hoje
ou não ter amanhã, e assim, tem que respeitar a cultura das pessoas, eu não posso oferecer
uma alimentação para o indígena da mesma forma para a população urbana, eles têm
seus hábitos, a gente sabe que Rio Grande do Sul tem um hábito diferente do Nordeste,
então tem que incorporar também essa questão da cultura.
Pelo que eu entendo de alimentação adequada, a pessoa tem que ter boa alimentação na
sua mesa, e nós não temos, para que nós temos uma boa alimentação, você tem que ver os
alimentos não estão estragados, e fazer pelo menos três refeições ao dia, e nós não
temos, nós temos três refeições no máximo, é o café da manhã e o almoço, às vezes
meio almoçamos, então eu acho que essa lei não está aplicada aqui dentro.
E o que acontece quando uma lei dessa não é aplicada? Alguém deveria ser político?
Sim, e por isso que existe toda uma política de responsabilidade administrativa, responsabilidade
fiscal, responsabilidade penal, para aqueles que desculpem as leis, e sobretudo essas leis
estruturantes, orgânicas, então os agentes políticos e administrativos respondem por
crime de responsabilidade.
Então nós não estamos falando de uma obrigação moral ou afetiva, ou ser bonzinho, nós estamos
falando de uma obrigação legal, se não for cumprida é um crime, é uma ação contra
a lei, então essa é o primeiro passo.
Se você reafirma isso ao governo todo momento, você informa isso à população, você começa
a criar um mecanismo de possibilidade de cobrança.
No Brasil, infelizmente, nós ainda não temos instrumentos que as pessoas possam ter acesso
para que esses direitos sejam efetivamente garantidos, então um dos papéis da sociedade
civil organizada e dos movimentos sociais é lutar para que esses instrumentos sejam
efetivamente implementados.
Então essa questão de exigibilidade, por exemplo, é um ponto crucial nesse processo,
porque na verdade o Estado, o governo vai ter que se organizar para disponibilizar para
a sociedade brasileira um conjunto de instrumentos para que ela faça uso e cobre dele mesmo
a realização do direito e que o Estado compre com suas obrigações.
No dia da consulta, em vez de a gente chega cedo, a gente chega 12h30 para consultar cedo,
a médica vem chegar 3h30 da tarde, quando é 4h ela quer ir embora, ela inventa mil
e uma desculpa, ela não fica para atender os pessoal e ela me atendeu quando chegou
na verdade a Donirassi, ela despachou, disse que não ia atender ninguém que tinha um
trabalho a fazer, tinha outra coisa para fazer na rua, como nós dissemos que ia denunciar
ela, no instante ela voltou para a sala.
Eu acho que tem que haver um investimento muito grande para a gente informar os servidores
públicos que são as pessoas que estão direto lá na relação com o público, com o cidadão
e muitas vezes se colocam numa situação de não responsabilidade, é lógico que ele
não tenha o poder de resolver toda a situação como um todo, mas ele tem um papel muito claro
e que muitas vezes tem um papel fundamental para desenrolar situações para aquelas pessoas.
As pessoas não têm só o direito ao direito, elas têm o direito a reclamar esse direito,
caso esse direito não seja garantido, entende?
E o Estado tem a obrigação de criar uns instrumentos para que esses direitos sejam reclamados.
Eu acho que a lei é muito boa, o problema agora é traduzir-la na prática em ações
públicas, traduzi-la em obrigações que sejam cumpridas pelo setor público e pelos
funcionários públicos e informar a população sobre esses direitos de uma forma bastante
ampla e democrática.
E eu acho que uma das questões fundamentais do trabalho de direitos humanos é mostrar
que um bom político é aquele que cumpre as leis e que implementa as leis como elas
são e não de acordo com os interesses de seus amigos ou os interesses de seus interesses
econômicos, por exemplo, de sua família ou de seus amigos.
Vim e vejo muita riqueza no Brasil, agora só está no mundo esploderoso, aí o pequeno
não pode ter acesso, além de estar no mundo esploderoso, ele vai para o quê?
Não tem problema de concentração de poder, poder político, poder econômico, poder
econômico na mão de poucas pessoas que desconhecem completamente uma outra realidade como a
realidade de Sururu, como a realidade de Velo Centrafonso e desconhecem assim, nunca
passaram dois dias naquela circunstância.
Como é que você acha que o Brasil vai se curar desse mal?
Eu acho que tendo trabalho para todos e não pode ter trabalho para todos, porque sempre
tem que ter a maioria desempregado.
A miséria é uma estratégia no Brasil?
É sim, mas é uma desculpa, é uma...
É claro isso não?
É um meio de vida deles que estão no poder.
É um meio de vida deles.
Nós vivemos na miséria e é um meio de vida para eles.
Nunca eles vão querer acabar com a pobreza, com a humanidade carenta, nunca eles vão sempre
querer estar com aquilo nas mãos, porque é um passaporte para a sobrevivência deles.
Nós não precisamos deles, eles que precisam da gente, então a gente tem muito que abrir
o olho nisso agora, porque para poder aumentar no poder ele precisa de toda a pessoa carenta.
Sem nossas mãos, sem nossos dedos, como o ano alfabeto, eles não chegam no poder.
É por isso que não dá uma escola de qualidade para o povo?
É porque não abrir os olhos.
É só por isso, porque se fosse coisa que tivesse políticas públicas para todo mundo
igual, com certeza, como a gente não ia ficar como nós estávamos antes, sem conhecer
nossos direitos, porque se todo mundo tiver o conhecimento dos seus direitos, aí todo
mundo vai correr atrás.
É verdade, porque olha, a Brande H teve que vir nessas duas comunidades e o pouco que
a Brande H ensinou, a gente cresceu, já pensou se a gente pudesse chegar a uma faculdade
e o que é que a gente não seria, eles têm medo disso, porque sabia que a gente somos
seres humanos e pessoas humildes, que ia ajudar o próximo, e ele só pensa em dinheiro
e em poder.
O Brasil tem recursos, esses recursos são, ou às vezes, desperdiçados, homo aplicados
ou principalmente desgiados para atividades elícidas, corrupção no Brasil é um problema
maior, maior, isso está na imprensa, eu vou aqui retomar esses dados, o problema da corrupção
é gravíssimo, e hoje ele corrói as instituições brasileiras, do estado brasileiro, do nível
municipal é o nível federal, se esses recursos fossem canalizados para o tema da reforma
agrária e outros, essas questões já teriam sido resolvidas, dá para resolver, mas não
é no espaço de uma geração de agricultores, no mandato presidencial, se eu ver a vontade
do público, porque os recursos estão aí.
Muita gente rica, é um país rico, para muita gente está passando fome, enquanto vários
tem comida boa na mesa, tem uma refeição boa, outros há que passar às vezes o dia
com fome.
O Brasil é um país rico, o Brasil tem condições plenas de garantir a alimentação de todas
as pessoas, e além disso tem toda a legislação necessária para que isso aconteça, o que
falta na realidade não é condições, o que falta é decisão e que a maioria faça
sua voz, valer.
Eles precisam conhecer que elas têm esses direitos, que essas políticas, por exemplo,
Bolsa Família, Programa de Acquisição de Alimentos, Educação, Saúde, não é um
favor dos governantes, é uma política de estado, e ela tem que ser desenvolvida penamente.
A cidadania não vem dada por alguém, a cidadania é sempre uma construção de um processo
de intersubjetividade, eu revidico cidadania, a partir do momento que estou revidicando
a cidadania, eu já me coloco numa postura cidadã, ou seja, ao buscar meu direito à
alimentação, eu já estou exercendo minha cidadania, ao ter esse direito efetivado de
uma ou de outra forma, eu estou assegurando o direito à alimentação.
Os movimentos sociais, vocês estão avançando no sentido de vão, quer dizer, do Brasil
dar uma virada?
Só são eles que fazem isso, os outros conservam, não dá virada, as elites conservam para
não dar virada, quem faz virar é o movimento social, só que a riqueza é apropriada por
um grupo restrito do social que domina tudo, em todos os campos, inclusive nos meios de
comunicação.
Por exemplo, onde é que está o crime, na sessão de polícia, onde é que está a violação
dos direitos da humanidade, na sessão de política, de economia, só que antes de ler
com o olhar do jornal, a gente acha que é um investimento, quando a gente só vê o
crime no batedor de carteira, mas o cara que está batendo a carteira do país parece
que é um grande empreendedor, a gente dá medalha para ele, só que o ato dele mata
milhares.
Eu acho que ainda falta ainda essa cultura no Brasil da gente perceber esse significado
dos direitos humanos, enquanto valores básicos da sociedade e que devem estar acima de todas
as políticas públicas, de todas as leis, de todas as, a todos os interesses do mercado.
A gente tem que acreditar, tem que fazer por onde.
Eu acho que conversando aqui com a Avânia, ela coloca essa motivação que ela tem de
solidariedade com o grupo dela, você vê assim.
E também aqui na vila, quando a gente se reúne e diz, o que que mudou na vida das pessoas
da vila?
Mas continuam sem água, continuam sem energia, aí assim, algumas casas já vieram melhoram
um pouco.
Mas dentro delas, você conversando, você percebe que mudou, algumas pessoas da comunidade
mudou e eu acho que assim, as pessoas mudam e as coisas começam a mudar.
Que a gente antes não falava em direito e hoje a gente fala, é um direito meu e vai
atrás e já fala na questão de exigir, de ir atrás não como se fosse um favor que eles
fossem fazer para a gente, as autoridades.
A gente chega lá e diz é um direito meu, claro que a gente tem levado muita porta na
cara, mas a gente está lutando e é uma coisa assim positiva.
Sem dúvida nenhuma, o futuro do Brasil e a eliminação, a reedicação da fome e da
pobreza está na mão do povo brasileiro, não está na mão de ninguém mais.
Então é esse o apoderamento que a gente ficou, de saber o poder que a gente tem.
Quando a gente chega para o prefeito e o governador diz, olha, você está errado, que antes a
gente tinha medo de ir ao governador Xun, um homem desse e a gente vai ser preso.
Não, a gente invade a prefeitura e chega na cara do prefeito e diz olha, isso está acontecendo
na favela surdo de Capote e isso é nosso direito de ter, a saúde, a educação, a moradia.
O que está acontecendo aos meninos novos, traficando, as meninas se prostituindo por
falta de políticas públicas.
Então quando a gente bate isso e ele fica calado ou quando ele quer ser exaltado a gente
diz espera aí, é nosso direito.
A gente paga você para isso.
Então isso é um apoderamento, esse é o apoderamento que a gente aprendeu a fazer.
É nosso direito, é nosso direito, é nosso direito, é nosso direito, é nosso direito.
A gente invade a prefeitura e chega na cara do prefeito e diz olha, você está errado.
Isso está acontecendo na favela surdo de Capote e isso é nosso direito de ter, a saúde, a
educação, a moradia.
O que está acontecendo aos meninos novos, traficando, as meninas se prostituindo por
falta de políticas públicas.
Então quando a gente bate isso e ele fica calado ou quando ele quer ser exaltado a
gente diz, espera aí, é nosso direito, espera aí, é nosso direito, é nosso direito, é
nosso direito, é nosso direito, é nosso direito, é nosso direito, é nosso direito, é nosso
direito, é nosso direito, é nosso direito, é nosso direito, é nosso direito, é nosso
direito, a gente paga você para isso, então isso é um apoderamento, esse é o apoderamento
que a gente aprendeu a fazer.
