O deus não quis, é um projeto que no início começou em 2003, quando na altura o Miguel
Rosa mostrou-me o guião, que era um guião inspirado na canção popular a laurindinha.
Uma jovem, mulher jovem, cheia de sonhos, ou por menos com uma data de sonhos em relação
a uma relação de amor, é uma jovem que está completamente apaixonada por um rapaz e que
a da altura se percebe que todo esse ambiente, toda essa paixão que está a viver, todo esse
cantamento, se vai cobrar.
Feitamente estava à mesa com dois amigos, o João Bernardinho e a Maria João, e vê à
baila a música da laurindinha que na altura era um sucesso de uma cantora portuguesa da
cultura, e nós de repente os câmenos com aquilo que a música dizia, e entre várias
conversas à mesa, vem-nos a ideia de que se Deus quiser, tudo aquilo era muito fatalista.
Quando começamos a tentar na letra da música, reparamos que realmente a canção tem um
problema pelo preverso e tem uma mensagem até perigosa, se quisermos.
Diz para ele, tenta-se com ele aqui, ele vai lá pescar o pedal, só em mudar aqui.
Olha, monstro e ferro, jovem condutor, o que que ele fez?
Ai, estou com o meu poço.
Nós sempre tivemos duas visões um bocadinho diferentes do filme, o Miguel Rosa, a gente
costuma dizer na brincadeira que ele escreveu o filme político e eu filmei a história
de amor, e o filme acaba por ser um bocadinho o resultado das duas coisas, porque na verdade
a história propriamente dita é a história da Laurinda e do Ramiro, que são um casal
apaixonado, que se vê separado porque o rapaz tem que ir para a guerra, mas que tudo
o que lhes acontece, acontece por questões políticas, porque o Portugal estava metido
numa guerra colonial e as pessoas eram obrigadas a ir para a guerra e muitas delas
acabavam, e na altura iam até de boa vontade porque achavam que estavam a servir a parte
de uma história melhor do que isso.
Em particular, transformar um filme no outro objeto e depois a montagem da música, tudo isso
que o António teve que coordenar ou saber trazer para a equipa as valências todas,
estás a ver, fez realmente um produto que eu não posso dizer que o imaginei daquela
forma, embora dramaticamente acho que o filme é muito fiel e respeita a ideia e o
conceito, o conceito de poder transformar a música numa personagem, a própria cadência
dramática como vai apresentando as personagens.
A rodagem foi difícil, sobre condições climatéricas muito adversas, a equipa foi
muito corajosa, a filmar de baixo de chuva, de ventania, enfim, frio, terrível, a começarmos
todos os dias às 6 da manhã e sem as que esforço da equipa isso não teria sido possível.
Hoje devíamos estar a filmar quase que o entral, e para cima sim na clão com o solo.
Não, disse que não, disse que achou.
Nós, a hoje escrever, às vezes tentamos fazer um truque, que é um dacinho baixo
para o realizador, que é escrever aquilo de certa maneira, que a gente já sabe para ver
se ele faz mesmo aquele enquadramento que nós imaginamos.
Ação, ação!
Cortou?
Há uma cena que eu pensei exatamente assim, mas é praticamente a única coisa que eu
posso dizer, que é a parte da mão na janela, em que faz a Laura e Ninha vêm à
janela, e que acho que há ali um bom equilíbrio, é uma parte que mostra a
riqueza do filme, mas acho que o António conseguiu captar aquilo que poderia haver
no argumento de poesia e dar uma visão muito poética, também bastante ajudada
por um trabalho muito minucioso, que isso foi uma das coisas que eu levei da
robagem, do trabalho de filigrena, do Paulo Loares, da paciência, da iluminação
para o resto de todo o casting, e pronto, foi feito com carinho.
Eu senti muito bem a trabalhar com o António, sobretudo porque era
alguém que tem uma visão muito clara daquilo que quer, mas sem deixar
com que isso aponte um único caminho, portanto, está sempre a abertura,
a forma como tu sentes a cena, como tu te identificas com ela, e então
há uma espécie de comunhão na procura de como é que a cena vai ser feita.
À medida que fui fazendo seleções, triagens, a Catarina e o Fernando
pareceram-me as pessoas ideais, e acho que o resultado é muito bom,
aliás, a Catarina já ganhou um prêmio com melhoratriz neste filme.
Qual foi a sensação?
A sensação mais forte, o impacto mais forte foi saber da animação,
que era algo que eu desconhecia que sequer fosse possível para mim.
Estando lá, já estava a ser tudo muito novo, estava a ser ótimo,
e então trazer o prémio ainda foi mais surpreendente.
Eu tento sempre utilizar a narrativa recorrendo ao máximo a imagem e ao som.
Este filme era um desafio também nessa espécie, na medida em que um filme
sem diálogos, só há recurso, há música que vai sabendo um pouco
como narrador do filme e, enfim, a representação dos atores e a imagem.
Nunca ninguém se cachou de não compreender o filme,
ou de sentir, inclusive, a falta de diálogo ao longo dos 15 minutos do filme.
Nesse sentido, como eu já sabia, que não ia ter o diálogo como
o recurso narrativo, explorei ao máximo o movimento de câmara,
a fotografia, o tratamento de cenouro.
Para mim, foi extremamente gratificante, porque foi um elemento liberador
que me pôs completamente à vontade para usar todos esses elementos
e procurei, nesse sentido, se quisermos fazer-nos assim um musical.
O que sempre me ensinou neste projeto foi a abordagem que o Miguel teve ao tema,
considerando que é um tema conhecido toda a gente, que é a canção popular
da Laurindinha, e ele teve uma abordagem completamente inovadora,
porque mostra-nos uma espécie de lado B desta canção, que é aparentemente inocente,
uma forma alegre na forma de uma canção popular.
A canção acaba por ser um apelo a acertarmos o facto da guerra
e de alguém ir para a guerra, como se nada fosse, como se fosse uma coisa inconsequente.
Quem ouva a canção pensa que ir para a guerra é como ir de férias ao Algarve.
Aquela música ainda nos pareceu, perdão o termo, bastante pornográfica,
e então nós achamos que talvez fosse girar, provocar, também,
ou desmontar, desmontar a montagem.
Pareceu-nos que aquela música já tinha sido, no contexto histórico anterior,
uma música daquele género, parecia-nos como um mecanismo,
um mecanismo da propaganda e um mecanismo pro guerra, que nos pareceu muito atual.
Temos as focas.
Vamos dar para o meu Lúvio, o que dá?
Vamos chamar!
Estão prontos em cima?
Estão andados.
18B sobre 3, primeira.
Ação! Silêncio!
