A audiência pública na Comissão de Assuntos Sociais do Senado Federal com a presença
do movimento feminista e das trabalhadoras domésticas, ela abre um diálogo mais de
20 anos depois de que a Constituição cidadã taxativamente disse que as trabalhadoras
domésticas do Brasil são cidadãs de segunda categoria.
Nós temos que recuperar essa trajetória para dizer que é momento de reparar este esquecimento
proposital dos constituintes, que ao consagrar a legislação na área trabalhista deixou
de fora essa que hoje ainda é uma das maiores categorias de trabalhadoras do Brasil e na
sua maioria mulheres negras.
A pauta para o Congresso Nacional, a pauta legislativa, ela é uma pauta de reparação
com certeza.
Uma mulher não escolhe ser empregada doméstica, uma trabalhadora não escolheu esse emprego.
Normalmente esse emprego surge como a única alternativa, ou porque não conseguiu escolaridade,
ou porque não tem onde deixar seus filhos em um período que ela podia estar estudando
para ter um outro posto de trabalho.
No capitalismo se criou milhares de condições para a divisão do trabalho doméstico com
as máquinas, a máquina de lavar, a panela de pressão, uma série de máquinas, mas
não se criou um diálogo solidário entre as famílias de que o trabalho doméstico deve
ser dividido entre as famílias.
E também nós não criamos um diálogo e uma pressão social sobre os governos de que
para diminuir a necessidade de trabalho doméstico nós devemos ter equipamentos públicos que
nos ajudem na reprodução da vida humana.
E não nós mulheres que queremos acessar o mercado de trabalho, queremos estudar, queremos
estar nas ruas, nos melhores empregos, não tenhamos que terceirizar o trabalho para outra
mulher, mas que nós tenhamos creches públicas para deixar nossos filhos, que nós tenhamos
restaurantes coletivos para que todos os dias nós não tenhamos que repetir a tarefa
de fazer comida, que nós tenhamos lavanderias coletivas para que cada um adulto, jovem
da sua família possa levar sua roupa, lavar, trazer para casa, diminuindo assim a dupla
jornada das mulheres trabalhadoras e diminuindo sim a possibilidade de contratar outras mulheres
e terceirizar um serviço que deveria ser um serviço de toda sociedade.
Então a nossa ação feminista vai no sentido de apoiar a luta das trabalhadoras domésticas
para que realmente elas sejam reconhecidas como trabalhadoras do Brasil e também de
fazer o debate ideológico na sociedade, nas nossas famílias, o embate com os governos,
o embate com a educação, no sentido que nós temos que repensar a estrutura das famílias
no consumo de trabalho doméstico, repensar nossas vidas e cobrar políticas públicas
sociais para o amparo, para uma melhor democratização da reprodução humana que ela se dá nesse
território do trabalho doméstico feito majoritariamente pelas mulheres na forma de
dupla ou tripla ou mais jornada de trabalho.
Até a próxima!
