Meu nome é Ancelmo. Ancelmo de Castro, nascimento.
Moro na Vila Missionária desde os 13 anos.
Ficava pouco tempo na rua, na verdade.
Sempre estava fazendo algum curso.
Um 2.000 para ter um computador em casa era um puto avanço, né?
A gente só falava disso.
Na manhã a gente vai pegar o computador novo,
a gente vai arrebentar.
A gente estava indo pulando de alegria.
Esse trajeto de ir até o banco,
foi onde a gente foi abordado.
E eu não voltei para casa.
A viatura passou pela gente aqui.
Deve ter feito o retorno nas ruas aqui atrás.
E saiu por aqui.
No que a gente veio atravessando,
acho mais ou menos por aqui,
eles já vinharam empurrando a gente,
e mandaram a gente vir para esse lado de cá.
Chegando ali, a gente foi abordado.
E ali que começou tudo.
A primeira coisa que a gente recebeu ao sair do carro,
ao sair do câmbulo na delegacia,
foi um chute no estômago.
Quando eu entrei na sala do delegado,
ele abriu a gaveta e colocou a arma em cima da mesa.
E mandou eu colocar as duas mãos em cima da mesa.
Aí eu coloquei as duas mãos em cima da mesa,
ele falou, você está vendo esse papel aí na sua frente?
Tem uma caneta do lado,
você vai pegar essa caneta e vai assinar.
Eu falei, não, eu já disse que eu não vou assinar.
Aí ele virou a arma ao contrário,
e começou a bater na minha mão.
Eu entrei, fechou a porta,
e eu fiquei, ali mesmo eu fiquei.
Aí eu inventei uma história,
eu ia saltar, não sei o que,
nem a história que eu inventei.
Aí eu sei que quando eu terminei de contar a história,
ele olhou no meu olho e falou,
cara, não mente para ladrão.
Não mente para ladrão,
você nunca pegou nem numa arma, né?
Aí eu falei, é,
só porque você afirmou agora que não é ladrão,
eu vou te ajudar.
Aí ele me levou numa cela
onde só tinha 12 pessoas.
Todas as outras celas tinham de 30 a 35.
E ali é uma linha muito fina para a sua vida,
e que nada totalmente diferente você ser outra pessoa.
Isso daqui era um pouco da força
que você tem para suportar lá dentro.
Eu sei que aí não é nada bom,
mas tem que ser forte.
Jesus te ama muito.
E eu também, de sua amiga Flávia.
Eu fiquei preso mais de 60 dias
por conta de 28 reais
que outra pessoa roubou,
posto que não existe em provas
de ter o réu concorrido para o crime.
Não tinha prova nenhum dia lá.
Na semana seguinte que eu saí,
um professor viu uns desenhos que eu fazia,
falou assim, no final do curso,
vou colocar você para estagiar
numa produtora de desenho animado.
Aprendi After, aprendi 3D,
fiz vários comerciais de publicidade,
fiz um clipe que foi considerado
o quarto melhor clipe da música brasileira de 2012.
Passar por isso fez com que eu crescesse
como pessoa, isso foi bom.
Nessa parte foi uma coisa boa
que eu me evolui,
e depois...
