Ela me disse, eu vivo numa cidade imaginada.
Ninguém sabe do que aqui se passa, a apenas espanto passagem, processão de cores.
Os habitantes vão pelos túneis, plataformas, viadutos, rolam pelas escadas, amontoados, confusos.
Ela me dizia sempre, a cidade é imaginada.
Ela prosseguiu me contando das ruas por onde caminhava, e de como eram velozes os trilhos sobre quais os trens andavam.
Ela me dizia que gostava de parar para escutar o vento, e que gostava do silêncio das tardes de vento.
Ela me contou da luz que nessas tardes iluminava a cidade.
Ela me disse, a cidade é um livro.
Passaram meses escrevendo o livro da cidade.
Ela andava pelas praças, angustiada, perplexa.
Enchi a cadernos com as palavras que ia recolhendo.
As palavras da cidade eram tantas que ela não sabia como organizá-las em frases, estrófes, capítulos.
Encontrei-a por acaso em uma praça, tinha um olhar transtornado.
Ela disse, quero escrever um livro infinito.
E se afastou. Achei que ela vinha enlouquecida.
E se afastou. Achei que ela vinha enlouquecida.
E se afastou. Achei que ela vinha enlouquecida.
Quando ela me contou que depois de inúmeras revisões, o livro infinito resumiu-se a uma única palavra.
Ver.
Sim, ela está louca, pensei.
Que editora publicaria um livro com apenas uma palavra.
Era curto demais e quem compraria um livro desses?
Mas eu estava enganado. Não era um livro como os outros que ela escrevia.
Certa madrugada, o telefone tocou.
Antes que eu pudesse dizer alô, ela anunciou.
Cansei de usar papel.
Vou escrever o meu livro na própria cidade.
E desligou.
Ela queria publicar a cidade imaginada que trazia em si.
E aí.
E aí.
E aí.
E aí.
E aí.
E aí.
E aí.
E aí.
E aí.
E aí.
E aí.
E aí.
