Bom, a chegada de nossa enregência na visita, na prospecção do lugar, encontramos um sol
abrazador, então a paisagem era outra, tivemos uma impressão de um campo aberto sem nenhuma
proteção, principalmente na área da fossa, contra o sol, então essa luminosidade do lugar,
a luz intensa, o calor intenso, tudo isso, também trouxe questões que a gente, de certa
maneira, teria que elaborar no trabalho, explorar essa questão da luminosidade, né, boren?
É, a noção da gente também da pesquisa prévia quanto à existência do farol, né,
o farol de Alexandria, que tinha sido construído no período do século XIX, em Meados final
do século XIX, que teve uma história também cambiante, porque ele obedecia ali a dinâmica
do rio, né, ele estava num lugar, depois ele foi para o outro, e a possibilidade de
tentar trabalhar alguma coisa que remeteça essa figura também, que é o farol, né?
Real de horas, horas surgem, então, na relação com essa base mitológica presença de um farol
na regência, e também por uma curiosidade, né, o apelido que ele recebe aqui de farol
de Alexandria, traz uma questão poética interessante, assim, para a visão de um artista,
né, para mim e para o boren, isso, de certa maneira, ficou presente, como uma possibilidade
de que o trabalho falaria ou diria ou estaria inserido no papel, né, algo que tivesse um
papel aproximado, com o que é um farol, e quando nós chegamos aqui naquela primeira
protecção, encontramos um mirante construído de forma precária, que os salva-vidas usavam,
né, para ter uma visão mais ampla da área de praia e da fossa, e a primeira impressão
que me deu quando eu olhei, depois comentei com o boren, é que o farol, quer dizer, poderia
ser, na verdade, esse mirante e com a presença do salva-vidas lá em cima, porque o papel
do salva-vidas é um papel muito próximo, é o papel de um farol, né, que é vito no
frágil, ele é o vito ao fogamento, então tem uma coisa de salvar vidas aí, que é interessante,
e é uma coisa luminosa, isso é um trabalho, né, que é um trabalho de luz, acho que é
um trabalho iluminado, ter a possibilidade de salvar uma pessoa, e a construção desse
objeto, dessa torre, né, partiu dessa relação com o mirante, mas foi migrando para outras
questões que era a presença de um objeto, a necessidade de uma presença de um objeto,
alguma coisa que fizesse referente, é o sol de regência, a luminosidade de regência,
e é o farol. Daí, a saída, que foi quase que natural
no processo, é pensar na reflexão dessa luz, né, o que eu acho interessante é pensar
nessa mudança de situação que é o farol durante o dia, que é a inutilidade desse
farol durante o dia também, por outro lado, quer dizer, ele passa a ser algo que tem,
se aciona por outras questões, né, não é um ponto de referência na escuridão, ele
passa a ser uma... é luz do sol, é luz em reflete na areia, no espelho, aumentando
essa coisa, mas passa a ser direcionado, porque ele necessita dar ação do sujeito
ali, né, em relação àquele objeto. Essa desfunção, como farol, que eu acho
interessante, porque ele aí cai na poética, entra na poética de frente, né, porque se
na verdade ele não funciona como farol e de dia não tem a sua importância comum,
porque também é um sinalizador de qualquer maneira, né, e agora o que sinal é esse,
quem manda esse sinal vai estar manipulando o espelho e quem recebe lá embaixo qual é
a intenção e as intenções podem ser várias aí, vai ser dependendo da pessoa que está
manipulando a peça. Acho legal que essa peça ela tem um formato, né, que já é um pouco
antigo assim, nos desenhos caligráficos de linhas que eu faço, então era como se fosse
um símbolo, assim, quando eu pensei na peça e passei para o Borém, apesar de não falar
diretamente nisso, eu pensei que para mim isso é um símbolo, é um símbolo de horas,
porque tem um disco do sol, né. A construção do Mirante foi uma luta, né, de dois dias
e quarenta e oito horas, vamos dizer, tipo de... Foi um trabalho acegas no sentido técnico,
apesar de uma pouca experiência que eu tenho com madeira, mas construir uma torre dessa
para mim é nessa dimensão, né, era uma coisa desafiadora para mim, então assim, a gente
foi numa luta constante, todo mundo ajudando, inclusive o Alexandre junto, está ali com
a fotografia, mas sempre apoiando aqui e ali, numa espécie de, parece que a somatória
de zeros que se forma um no final, e isso nos surpreende, né, no final também, porque
a gente tinha dúvidas muito grandes em respeito dele, ele ia ficar em pé, se ele ia se
sustentar, se ele ia se equilibrar, essa intempéria, né, do confronto com ou fazer
com a matéria, a materialidade das coisas que a gente estava usando, que é essa planta,
essas várias eucalípios que estavam verdes, né, que são totalmente inadequadas para
fazer um trabalho de estrutura, a princípio, mas as intempéries da presença da chuva
que mudou completamente a nossa experiência com regência, aquele aspecto solar deixa
de existir com tanta intensidade e aparece um outro aspecto. Eu acho que o que tem bacana
também em relação a essa construção, é que é uma luta contra dois elementos, né,
uma luta contra um saber que ele existe como técnica, mas nós não temos a técnica
e o técnico ajudando, um apoio, mas um saber que vai se construindo no momento em que
se vai fazendo a coesa. A frustração já era uma solução, e como é que é que vai
se mover? Exatamente. Então é uma frase de Clarice Linspector que eu gostaria de falar
aqui porque já usei ela, e é uma frase que ela fala de literatura que eu gosto muito,
ela disse que escrever é construir um galinheiro de ripas em meio a um vendaval, né, como
estivesse dentro de um foracão e você estivesse construindo algo com material inadequado,
uma hora inadequada, no momento inadequado e mesmo assim essa insistência até o final
obteram um resultado. A maneira que a gente está ali informando a matéria, dizendo
como é que ela deve ser, ela está respondendo como é que ela quer ser e a gente tem um
embate, a gente chega num acordo, e a gente foi bem um acordo mesmo assim, um acordo
que a gente estava temeroso até no final, porque como é que é, tipo, aquele momento
de levantar aquilo ali, levar para a praia e tudo montou, arrochamos, parafusas, que
eu gosto tudo, e aquele momento crítico ali de levantar aquela torre, que pô, eu podia
ruir e a gente estava no chão, estava em parte da terra, né, tipo, e aí o trabalho
ia ter que estar em outra situação, em outro espaço discursivo até. A posição
do diálogo ao invés do monólogo, quando o sujeito impõe sobre a matéria a sua vontade
a trancos e barrancos, né, e isso para mim é muito, muito presente na arte.
