O que aconteceu?
Foi presto pra ela.
Foi um colchado na musulotada.
Ele me chamou de gostosa.
Ele me traia.
Também, olha só pra você.
Toda gorda,
isso é chata.
Isso é coisa da sua cabeça.
Você é louca.
Volta pra mim.
Ninguém mais vai aguentar uma mulher como você.
Mas ele te ama.
Perdoa.
Que culpa você usava?
Um vestido de forzinha.
Propícia ao estupro.
Será curto?
Tava pedindo.
Passadiz e camiseta.
Camisão.
Ele estava dormindo.
Mas ele não era seu namorado?
É.
Então não foi estupro.
E agora,
e se eu estiver em gravidade do estuprador?
Não pode abortar.
Mas eu não quero ter esse filho.
Mas eu já tenho um filho.
Seu marido pode assumir-se também.
Pai, quem cria.
Mas eu sou mãe solteira.
Inútil,
não conseguiu segurar um homem?
Ele não era namorado mesmo.
Foi só uma noite.
Aconteceu.
Mulher que dá na primeira noite é puro.
Sua mãe não te ensinou a fechar as pernas, não?
Se fosse mulher direita, de família,
isso não acontecia.
Logo se ver que você não é mulher para casar.
Separei.
Ele me batia do que eu queria trabalhar fora.
Mulher tem que ser submissa ao marido.
Ele me batiu porque tinha sido os meus amigos.
Dos meus visites.
Dos meus professores.
Dos meus primos.
Dos meus colegas de trabalho.
Ele me batia porque eu não fazia tudo o que ele queria,
do jeito que ele queria.
Eu batia porque eu quis.
E eu bato tudo.
Ela me bateu porque eu fiquei com uma maradadão.
Viriceu, então, vadia.
Mas eu nem sabia que ele era comprometido.
Ah, mas ele é homem.
Se for assim, eu não quero ter um marido.
Mas você nem parece uma mulher, hein?
Mas eu quero sair mulher para você.
Convente?
Seios?
Sexo?
Buceta?
Você é comportada?
Você é boa esposa?
Namorada?
Você é em nada?
Você é da casa?
Você é submissa?
Você é gentil?
Carinosa?
Contrencida?
Delicada?
Alta?
Maga?
Perfumada?
Depilada?
Te esperava de braços abertos?
Te esperava de braços abertos?
Sentava de pernas fechadas?
Você é feminina?
Meiga?
E frágil?
E educada?
Você estava me perguntando o que é ser uma mulher?
Primeiro, eu acho que o grande problema
é tentar encaixar a gente em caixinhas.
Homem?
Mulher?
Homem?
Mulher?
Se é uma mulher para mim, se você tiver que responder essa pergunta,
essa é forte.
Tanto dia.
Porque para aguentar o tanto de merda, o tanto de agressão,
o tanto de violência, o tanto de soco na cara que a gente leva todo dia,
é muita guerrilha, é ter muita força.
Então se eu tiver que responder essa pergunta, eu respondo assim.
É ser forte, igual a minha mulher, igual a minha avó foi,
igual toda a minha ancestralidade feminina e feminista foi.
É força, é guerrilha.
E é deixar o cabelo de sovar com crescer.
Ser mulher para mim não é estado, é uma luta.
Ser mulher não é ter uma lucida, não é ter um interno,
não é ter seios, não é ter um nome dado pela minha família desde pequena
e ser considerada pela sociedade como mulher.
Para mim ser mulher é ter os meus direitos garantidos,
meu nome, minha saúde e não ser morta por eu ser uma mulher
com pins ou com vagina, com cabelo grande ou cabelo curto,
sendo considerada masculina ou feminina.
Para mim ser mulher é ter meu direito de ser mulher,
ter o que eu quiser e ser o que eu quiser.
Nem toda mulher nasce dentro do gênero,
nem toda mulher precisa de homem.
Calha essa voz que tenta dizer para você
o que você tem que ser, sentir, fazer.
Você é aquilo que você quiser e pode ser.
