Eu gostaria, a gente gostaria de que você falasse um pouco da sua trajetória até chegar aqui no cargo da administra.
Fundamentalmente, eu acho que o que me trouxe até aqui foi a minha militância nos movimentos sociais,
que é uma coisa que eu sempre prezei muito. Eu ingressei no movimento negro unificado em 1979,
que foi o mesmo ano em que eu me transferi de Porto Alegre para Salvador. Militei no movimento negro até em 1994.
Nesse meio tempo, também participei, comecei a participar do movimento de mulheres.
A gente tinha, na verdade, dentro do menu um grupo de mulheres, formou um grupo de mulheres,
que eu acho que foi um dos primeiros grupos de mulheres negras na Bahia.
Num trabalho que nós desenvolvíamos na época muito ligado aos bairros populares, a cidade do interior do Estado,
nós tínhamos, naquele momento, um grupo de teatro que nós utilizávamos o teatro para fazer um trabalho,
de levantar essas questões que a gente percebia como sendo questões que eram mais específicas da vida, da vivência das mulheres negras.
Paralelamente a isso, eu era funcionária pública, sempre trabalhei no Estado da Bahia,
num período também que foi muito importante e um período rico do ponto de vista do trabalho no governo do Estado,
dentro da Secretaria do Trabalho, onde nós aproveitávamos todas as brechas para poder fazer as coisas que nós considerávamos importantes,
uma perspectiva mais progressista, digamos assim, e foi um período onde comecei a desenvolver também meus interesses profissionais,
trabalhando com gerenciando programas e projetos na área de capacitação para o trabalho, na área de microcrédito,
de organização de trabalhadores autônomos e posteriormente passei a trabalhar no setor de pesquisa,
de estudos e pesquisa sobre o mercado de trabalho, que foi a área, inclusive, onde eu realizei a minha tese de mestrado,
e era isso a vida, era esse trabalho para sobrevivência e a militância no movimento negro até 1994,
quando eu ganhei uma bolsa de estudos e fui para os Estados Unidos, onde passei quatro anos para fazer um doutorado que eu não conclui,
porque não conclui a tese ainda e foi outra experiência também muito importante para mim, porque nos Estados Unidos
eu pude ter contato com tudo o que eu precisava naquele momento, que era uma literatura que desse conta mais especificamente
de todas as questões ligadas ao racismo, ao combate ao racismo, ao enfrentamento das desigualdades,
pude conviver com pessoas negras de muitos lugares no mundo, dentro de um programa que era um programa dedicado
à questão da diáspora africana, portanto, também contribuiu muito para mim para fortalecer determinados conceitos,
ou pelo menos selecionar, digamos assim, aqueles conceitos que até hoje eu utilizo e contribuo,
para que eu possa ter uma compreensão mínima de como o racismo opera no Brasil.
Na volta, eu dirigi minha carreira para um outro sentido, fiz um concurso, fui ser professora na Universidade Católica de Salvador,
paralelamente a isso eu comecei também a partir de uma provocação do movimento negro a fazer o trabalho de consultoria
junto às Nações Unidas, porque foi o movimento negro que provocou essa oportunidade, foi quem abriu esse espaço
nas Nações Unidas para que eu começasse lá um trabalho vinculado à preparação da terceira Conferência Mundial contra o racismo,
e a partir daí eu me inseri num trabalho como consultora.
Em seguida, lá para o final de 2007, início de 2008, na verdade, surgiu essa outra, apriu-se essa outra possibilidade
de contribuição com a luta contra o racismo, que foi a minha ida para Secretaria de Promoção da Igualdade,
a CEPROME no estado da Bahia, que eu fui para substituir o deputado Luiz Alberto, que foi o primeiro secretário da CEPROME,
e que estava naquele momento saindo para retomar a sua cadeira de deputado federal.
Então foi assim que eu entrei na CEPROME, que foi um outro trabalho fantástico, do qual eu não emocionalmente,
eu ainda não me desliguei até hoje, que foi uma experiência muito definitiva do ponto de vista de colocar em prática
uma determinada concepção sobre como se trabalhar na estrutura do estado,
em primeiro lugar sabendo que o estado tem seus limites,
e em segundo lugar, numa perspectiva de respeito mesmo, autonomia dos movimentos sociais, coisas desse tipo.
Então acho que o trajeto foi esse.
Quais os principais desafias que a senhora vê para o governo avançar numa política de igualdade racial?
Ah, os desafios são inúmeros, inúmeros, mas eu colocaria três principais.
O primeiro é admitir que o racismo e o sexismo são estruturantes nas relações raciais no Brasil,
no estabelecimento das hierarquias.
Se a gente não consegue isso, a gente vai continuar tendo muita dificuldade de fazer com que as políticas públicas efetivamente revelem
a dimensão que as desigualdades raciais têm no país.
Por isso que é tão difícil ainda, apesar da abundância de informações, a gente ver refletido nas políticas públicas
a toda essa gama de estatísticas sobre as desigualdades raciais.
As pessoas podem aqui e ali até utilizar isso nos seus diagnósticos, mas isso não consegue ser refletido na formulação,
no processo de implementação, no monitoramento da política.
Então esse é um desafio grande.
O segundo desafio tem a ver com a necessidade da gente separar os efeitos do racismo dos efeitos da pobreza na vida das pessoas negras,
que isso entre os formuladores de política, eu diria, uma dificuldade secular.
Sempre essa tendência de achar que o que torna a vida das pessoas negras mais, entre aspas, difícil, é o fato da maioria ser pobre
e nunca achar que existe essa variável que opera independentemente da inserção econômica da pessoa negra, que é o racismo propriamente.
Nesse sentido é muito importante que a gente tenha esse apoio, como eu falei antes, das estatísticas, das desigualdades
e a profunda e sofistique um pouco mais esses estudos exatamente para estabelecer essa separação entre o que é efeito da inserção econômica e o que seria efeito do racismo propriamente,
que é algo que sem dúvida alguma atinge qualquer pessoa negra de qualquer classe social.
O terceiro que eu vejo está relacionado à própria estrutura do Estado, a forma como o Estado está organizado, porque se você, quando você trata de política para as mulheres,
quando você trata de igualdade racial, você não está tratando de uma dimensão da vida das pessoas, você não está tratando de uma determinada área dentro da qual a gente vive,
você está tratando da vida na sua expressão mais ampla.
E a estrutura do Estado, ou seja, como ela está representada no governo federal ou no governo estadual, ela é toda compartimentada.
Educação é vista como uma área que não necessariamente se comunica com saúde, que não necessariamente se comunica com segurança e por aí vai.
Então, isso para nós é uma dificuldade muito grande.
Talvez hoje eu vejo isso menos como dificuldade, mas eu vejo como uma expressão da sofisticação da nossa proposta, entendeu?
De como ela checa o Estado do ponto de vista da superação da sua forma de organização.
Isso está completamente superado, não tem quase que nada mais a ver com tudo que se diz hoje em matéria sociológica, vamos dizer assim, aponta para o quê?
Aponta para a implicação de todas as dimensões da nossa vida.
No entanto, o Estado ainda é de uma certa forma obrigado a se organizar como se as coisas fossem separadas umas das outras.
Então, com o tipo de política pública que a gente pretende, que a gente traz para dentro do Estado, a gente passa, na verdade, o tempo todo questionando esse tipo de separação.
E na prática enfrentando todas as dificuldades que essa separação representa.
Como é que eu vou pensar hoje a questão da saúde da população negra, que está do ponto de vista da sua implementação muito ligada ao Ministério da Saúde,
mas que não pode de maneira nenhuma ser desconsiderada no Ministério da Educação, porque eu tenho que ter esses conteúdos inseridos nas escolas da área de saúde,
essas escolas todas que formam os profissionais de saúde, por exemplo.
E às vezes é extremamente difícil você colocar todos esses profissionais de você criar essa cadeia de maneira que é implementando essa ideia da igualdade racial,
fazendo com que isso passe por dentro de todos os setores, você consegue construir efetivamente um resultado que tenha feito na vida das pessoas negras.
E essa dificuldade exatamente da gente causar o efeito na vida das pessoas, ela é dada por essa fragmentação da nossa própria atuação.
Aí você vai aqui, consegue alguma coisa, mas do outro lado que complementaria não foi conseguida, então os resultados vão se tornando cada vez mais rarefeitos,
vamos até eles chegarem onde devem chegar, isso aí então é meio, fica meio difuso, etc.
Então é um pouco isso, então uma boa parte do nosso esforço, uma boa parte.
E eu tenho colocado isso desde até antes da experiência da CEPROM e com o fato de ter e de estar, não é experimentando esse trabalho dentro do institucional,
só me reforça isso, eu não canso de repetir, não canso de repetir que o que nós somos aqui, o que nós fazemos dentro da estrutura do Estado,
é uma tradução, é uma tradução daquilo que os movimentos sociais colocam, daquilo que as mulheres colocam, daquilo que os negros, os grupos LGBT colocam.
E quando você faz a tradução do movimento social para dentro da estrutura do Estado, existe um determinado significado dessas bandeiras de quando elas foram criadas,
que se perde quando chega aqui dentro, porque a tradução muitas vezes tem isso.
Você como tradutor vai inserir elementos que são elementos dessa outra realidade onde esse texto agora vai tentar ser entendido.
Então são palavras que são mudadas, são sentidos que são mudadas para que esse texto seja entendido por este outro público,
que não faz parte daquela realidade de onde isso foi criado inicialmente.
Então é dentro disso desse espaço que a gente navega.
E aí qual é o papel, digamos assim, é de buscar o máximo possível aproximar esses sentidos,
dessas bandeiras históricas dos movimentos, esses sentidos com que elas foram criadas, dos sentidos que são possíveis de serem entendidos aqui.
Quer dizer, é isso que é como eu elaboro, digamos, esse tipo de coisa para poder entender o meu papel e não me angustiar com ele,
e também de ter uma certa compreensão das críticas que o movimento social faz a isso que a gente realiza aqui.
Essa permanente sensação de insatisfação do movimento social com aquilo que a gente faz, ela tem que ser entendida nesse contexto.
É uma insatisfação legítima portanto.
E, Ministra, quais são as principais metas da CEPI para esses próximos sentidos?
Eu nem conclui o processo de transição ainda.
Eu nem conclui o processo ainda de transição. Quer dizer, a equipe que eu quero trazer para a CEPI ainda não veio, não veio toda ela para a Brasília.
Trabalhar aqui e vir trabalhar em Brasília não é uma coisa a qual as pessoas respondam rapidamente.
Eu estou indo amanhã. Quer dizer, isso implica na necessidade dela dar em conta dos compromissos que já tinham no lugar onde moram.
Providencial é uma mudança de vida para todas as pessoas.
Quer dizer, eu não estou com equipe completa, não estou com esse processo de transição completo.
Para uma coisa que já se pronuncia como necessidades ou como prioridades, em primeiro lugar é a gente ter um trabalho interno aqui no Ministério,
no sentido de criar formas de comunicação e estabelecer noções de complementariedade entre os trabalhos que são realizados aqui dentro.
É uma comunicação interna.
Eu acho que é um pouco o que os técnicos. Uma palavrinha que eu acho meio chata que está na moda é sinergia. Tem que criar, não tem jeito, gente.
Eu sempre evitei o uso dessa palavra sinergia. Agora que eu vim para cá, eu acho que ela vai se incorporar no meu vocabulário, porque tem que criar, gente.
Então, tem essa questão interna. Tem uma segunda que é como a gente relabora, vou dizer assim, as nossas formas de comunicação com os demais ministérios aqui na Esplanada.
A gente vai ter que um pouco estabelecer determinadas prioridades e, dentro dessas prioridades, reformatar a nossa relação com os ministérios.
O que a gente quer deles? E, nesse sentido, não apenas entender melhor o que é prioritário em cada ministério e, ali dentro, buscar reconfigurar o que existir de política e de programa em nosso benefício,
mas também de nós criarmos, entendeu, propostas e oferecermos essas propostas para esses parceiros ministeriais.
E a terceira, o terceiro aspecto tem a ver com a nossa relação, a relação da SEPIR com os movimentos sociais, com os intelectuais negros,
que é uma relação que também precisa ser colocada, talvez, em outros termos, para que essa distância que os movimentos sentem em relação a SEPIR possa, de alguma forma, ser diminuída.
O Ministério tem um conselho, que é o conselho nacional de promoção da igualdade racial, que tem uma representação bastante boa dos movimentos no Brasil,
mas existe, para além dessas organizações que estão lá representadas, vários outros movimentos, grupos espalhados pelo Brasil inteiro, que não fazem parte dessas organizações, que são organizações de caráter nacional,
e que a gente vai ter, que criar uma forma de diálogo com elas. Então, é um pouco isso, isso aqui, fruto das primeiras conversas que temos tido com a equipe que vai assumir a partir do final agora do mês de janeiro,
e é uma questão, agora, da gente manter o fôlego necessário para colocar em marcha essas três medidas iniciais, todas elas simultanearão.
Vamos implementar o eixo 9 do plano nacional de política para as mulheres, é simples assim, entendeu? Eu acho que o que eu tentei deixar muito evidente desde o discurso lá da transmissão do cargo,
é que não vai haver na sepira que nenhum tipo de situação onde a gente vá se perguntar, devemos ou não devemos trabalhar com as mulheres negras? As mulheres negras são ou não são parte da nossa missão institucional?
Eu não tenho a menor dúvida com relação a isso, a gente vem, existe um acúmulo muito pequeno da instituição no que se refere a esse tipo de trabalho, mas eu acho que as propostas já estão aí colocadas,
é uma questão da gente sentar e ver exatamente dentro dessas prioridades da política pública que estão sendo definidas com o que nós podemos dar destaque para as mulheres negras, para aquilo que a gente considera importante nesse momento.
Eu acho que o que vai facilitar bastante nesse processo é o fato de nós termos, dentro do Conselho do CNP, representações tanto da articulação de organizações de mulheres negras do Brasil quanto do Fórum Nacional de Mulheres Negras.
Então, nesse sentido, eu acho que a gente está com uma ponta no diálogo bastante forte para poder vir com uma agenda que não deixe dúvida nenhuma do compromisso desse Ministério com as políticas para as mulheres também.
Eu acho que o que vai facilitar bastante esse processo é o fato de nós termos, dentro do Conselho do CNP, representações tanto da articulação de mulheres negras do Brasil,
e nós termos, dentro do Conselho do CNP, representações databases de mulheres negras de Mulheres Negras do Brasil.
